L 1: 1Sm 3, 1-10. 19-20; Sl 39 (40), 2 e 5. 7-8a. 8b-9. 10-11; Ev: Mc 1, 29-39
Por ocasião do 50º aniversário da sua ordenação sacerdotal, o Papa João Paulo II publicou a obra “Dom e Mistério“, na qual testemunhou:
A história da minha vocação sacerdotal? É sobretudo Deus quem a conhece. Na sua essência mais profunda, toda vocação sacerdotal é um grande mistério, é um dom que supera infinitamente o homem. Cada um de nós, sacerdotes, o experimenta claramente durante toda a nossa vida. Perante a grandeza deste dom, sentimos nossa inaptidão. A vocação é o mistério da eleição divina: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos
escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça.” (Jo 15,16). … as palavras humanas não são capazes de arcar com o peso do mistério que o sacerdócio leva em si.A vocação sacerdotal é um mistério. É o mistério de um “admirável intercâmbio” – admirabile commercium – entre Deus e o homem. Este dá a
Cristo a sua humanidade, para que Ele se possa servir dela como instrumento de salvação, como se fizesse deste homem um outro eu. Se não se capta o mistério deste “intercâmbio”, não se consegue compreender
como pode acontecer que um jovem, escutando a palavra “Segue-me!”, chegue a renunciar a tudo por Cristo, na certeza de que, por este caminho, a sua
personalidade humana ficará plenamente realizada.
À luz da primeira leitura, a vocação é o diálogo entre a escuta do próprio nome e a resposta “aqui estou, porque me chamaste”. Notemos a causalidade! O “porque me chamaste” é o “ikigai” da vocação: significa que porque é Deus a chamar a vida já vale a pena, o seu chamamento é a sua razão de ser, o propósito de vida, missão pessoal. É este chamamento que dá sentido ao nosso dia-a-dia, que nos dá energia para nos levantarmos da cama. Quem tem um chamamento tem um “porque” viver. Se a palavra de Samuel a Heli fosse interrogação: “aqui estou, por que me chamaste?”, a resposta serviria os interesses ou motivações de Heli, mas não, é uma afirmação que usa o “porque”, que declara Samuel disponível. Quer dizer que a nossa disponibilidade para servir os nossos irmãos, a começar pelos nossos superiores prepara-nos para servir o Senhor.
A forma como o sacerdote Heli interage prova-nos que as duas “autoridades” essenciais da vocação são Deus que (ch)ama e o homem que (livremente) responde. Heli representa uma 3ª pessoa, uma mediação de Deus e do povo orante. À luz desta cena, podemos pensar na vocação como aquela operação misteriosa que Deus realiza enquanto Adão está no sono, para que este encontre a auxiliar semelhante a ele, aquela solução que Deus sonha para José enquanto este está a dormir. Aquele sonho, aquela oração em que Deus nos dá uma missão semelhante a nós mesmos. A vocação nunca poderá deixar de corresponder a uma missão personalizada. Uma vocação pessoal. Uma vocação que se confirma com a paz de Deus. Assim foi com a descoberta vocacional de D. José Policarpo, testemunhada no encontro de jovens portugueses, na Arena de Madrid, na JMJ 2011: diante do Santíssimo, durante toda a noite, ele provoca-O com o “mostra o que vales”. Policarpo amanhece com o coração cheio de paz, na perspetiva de se entregar ao Senhor como presbítero.
As coisas mais importantes da vida que nos são oferecidos por Deus ou que Deus nos permite viver têm uma origem que não precisa de ser vista ou compreendida. Mas, por outro, lado implica uma escuta, um diálogo e uma resposta. Como aconteceu com Maria e Deus através do Arcanjo.
Providencialmente, na audiência de hoje, o Santo Padre aproveitou o ciclo de catequeses sobre o Vaticano II, para aprofundar a Constituição dogmática Dei Verbum, sublinhando que
Jesus Cristo mudou radicalmente a relação do ser humano com Deus, transformando-a em aliança de amor. Relacionando-nos com o Senhor, é-nos restituída a semelhança divina, tornamo-nos filhos do mesmo Pai do Céu e recuperamos em definitivo o diálogo com Deus, que ao falar-nos no Filho Unigénito, se mostra como Aliado e nos convida a uma autêntica amizade consigo. A primeira atitude a desenvolver é, portanto, a da escuta; depois então, as palavras que dirigirmos, na oração, a Quem realmente nos conhece, revelarão o que na verdade somos.
Este admirável intercâmbio entre Deus e o ser humano ajuda-nos a compreender melhor o não menos admirável intercâmbio entre Deus e a humanidade através de Jesus, que cura, reza e anuncia. O intercâmbio de vida que Jesus realiza entre a sinagoga, a casa de Simão e a cidade inteira que Lhe apareceu à porta de casa é possível por causa do intercâmbio que acontece entre Ele e o Pai naquele “sítio ermo”. E é ainda a esta relação que Lhe permite estar sempre disponível para ir a “outros lugares” e por toda a Galileia, pregando e curando. Lembremo-nos do que diz o n.º 72 do Documento final da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos: deste modo, também no presbitério se realiza um verdadeiro intercâmbio de dons em vista da missão.
O que torna a missão de Jesus eficaz ─ e que pode também tornar a nossa missão de padres eficaz ─ é a relação de complementaridade entre a “solidão” habitada por Deus e as atividades de ensino e de cura frequentados pelas pessoas. Esta alternância complementar permite que se perceba que o dom vocacional que nos habita vem de Deus, assim como toda a eficácia da nossa missão.
Jesus domina os espíritos do mal e tem a palavra da verdade. Mas procura evitar que o povo simples e sempre sensível ao espetacular faça uma ideia errada do Messias e da sua missão; por isso, pede sempre muita discrição em volta dos seus milagres (“não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era”). Por vezes, nas nossas vidas de pastores, também se intromete esta “serpente” do orgulho no meio daquele intercâmbio que será sempre entre Deus que nos chama e os seus destinatários que respondem, diante dos quais nos chama a ser somente intermediários. Precisamos de aprender um pouco com Heli: provocar que cada pessoa se encontre diretamente com Deus, no silêncio da solicitude. É verdade que Deus e as pessoas precisam de mediações, mas estas nunca poderão substituir a relação de Deus Pai com cada filho e filha. Penso que é aqui que começa a lógica dos hoje tão famosos “abusos”, que começam ora quando se substituiu Deus, ora quando se substituem as pessoas. Aqui estou, porque me chamaste. Esta causalidade das vocações não pode ser substituída por qualquer motivo utilitarista. Porque a nossa vocação é dom e mistério!
Ser grandes aos olhos das pessoas dá-nos stresse e ansiedade; ser só grande aos olhos de Deus dá-nos paz e alegria.
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* Um conceito japonês que significa a “razão de viver” ou “o motivo para acordar de manhã”.
