L 1: 1Sm 1, 9-20; Sl 1Sm 2, 1. 4-5ab. 5cd. 6-7. 8abcd; Ev: Mc 1, 21-28
«Porque os ensinava com autoridade e não como os escribas». Há uma cena da celebração do Natal, nomeadamente da Epifania que nos ajuda a interpretar esta afirmação de Marcos (cap. 2). Depois da perturbação de Herodes gerada por aquilo que tinha escutado sobre os Magos que andavam à procura do “rei dos judeus”, a primeira reação de Herodes foi reunir os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntando-lhes onde devia nascer o Messias. E eles respondem-lhe com precisão. Mas a perturbação de Herodes não fica resolvida. Talvez por que eles saibam, mas não se movem com o que sabem. Em segunda mão, Herodes pede ajuda aos Magos, pedindo-lhes o aviso do tempo do encontro. Para que ele também o possa ir adorar. Herodes pede-lhes a hora em troca do local (Belém).
Podemos interpretar por este sentido a autoridade de Jesus que não era como a dos escribas: a sua autoridade era constantemente iluminada pela relação com Deus Pai, que o movia na direção do encontro com os outros. A sua palavra é libertadora, porque vinha do coração do Pai (não como as dos informadores de Herodes), refém da confusão dos poderes. Podemos ver a estrela no Evangelho que, quando é acolhido, leva o mal a perder o poder que tem sobre nós e a desfazer o medo que nos impede de caminhar.
«Que tens que ver connosco, Jesus Nazareno?» ─ é uma pergunta que, por vezes, tendemos a fazer quando deixamos falar mais alto os medos que nos habitam. Herodes também teve medo que o Messias-rei-dos-judeus o viesse destronar, temendo vir para o fazer perder. Não lhe bastava saber sobre Jesus, como o espírito impuro. Portanto, não basta saber que Jesus tem poder; é preciso deixar exercê-lo sobre nós e não só aos outros.
A autoridade de Jesus não se fica só por palavras, como a Verdade que Ele é e anuncia não é só uma questão de discurso. A Verdade libertadora fala com factos que curam, que levam a vida a ficar resolvida, ainda que para tal se precisem de processos, por vezes, longos de encontro com Cristo.
Hoje é um dia propício de pedir e deixar que Cristo mande “calar” os males e os medos que nos habitam. Como sugere Fabio Rosini (em A arte de curar), o contrário do amor não é o ódio, mas o medo. O medo de desiludir que tem como combustível a soberba; o medo de perder o controlo alimenta a avareza e a ira; o medo da frustração dá lugar à voracidade da gula e também alimenta a luxúria; o medo de não sermos perfeitos é outra via mestra da soberba; o medo de não ter importância, é a coluna vertebral do orgulho que também está ligado à inveja; o medo de sofrer é a alma da acídia. Os vícios, na realidade, são medos. Há uma única mentira, que assume muistas formas, mas que é sempre a mesma; tenho-a encontrado em todos os corações, sepultada sob mil faces, idêntica, má, destrutiva e, aparentemente, insolúvel. O autodesprezo…
Levemos, hoje, como Ana, as nossas amarguras para diante do Senhor. Façamo-lo com o coração. Confiando que virá a paz.
