Em princípio, quando uns noivos se casam, a luz-de-mel costuma ser realizada fora do ambiente onde os noivos vivem ou o lugar onde se casaram. E quem “casa quer casa” diz o povo, sábio em considerar que é preciso sair ou partir para que se favoreça o desenvolvimento da própria missão.
No caso de Jesus, o início da sua esponsalidade com a Ecclesia que estava a formar começou fora da Nazaré onde tinha crescido, percorrendo as terras da Galileia. Naquele dia em que foi à Sinagoga, ainda teve um “salpico-de-mel” na admiração dos que o estavam a ouvir, mas que foi por pouco tempo. A admiração das pessoas é feita de um misto de assombro pelo modo como Jesus Se apresenta (v. 22a) e a pergunta «Não é este o filho de José?» (v. 22b). De modo que o “dar testemunho” acerca d’Ele poderia transmitir entusiasmos e, ao mesmo tempo, suspeição. Entusiasmo dos que creem n’Ele como Filho de Deus; suspeição da parte dos que olham só para a sua humanidade.
Os conterrâneos de Jesus querem levá-lo ao cimo do monte ao “precipício” da indiferença à autoridade que Ele transmite. Querem deitá-lo dali abaixo porque ignoram ou desconsideram que Ele vem do cimo do monte da relação com o Pai. É de Deus que Ele é Filho Unigénito. De facto, José assumiu a sua paternidade legal. Isto também pode acontecer connosco, quando as pessoas se esquecem de onde, de facto, nós vimos verdadeiramente e para o que somos chamados. As pessoas são capazes de me associar aos meus pais, e de ignorar ou desconsiderar por completo que também sou filho de Deus e formado por muitas instituições e pessoas. O que sou é obra de muita gente, para uma finalidade ou missão que eu mesmo sinto como mistério.
Conforme os evangelistas narram, na presença de Jesus o Reino de Deus deixou de ser meramente uma meta futura. O Reino é a verdade, a novidade do mundo que Cristo suscita em redor da sua vida. Desde o momento em que o Espírito atua de um modo transformante, desde o momento em que soou a hora da libertação dos pobres, cegos, oprimidos, chegou o reino. É esta a verdade de Lucas sobre Jesus. No momento em que Jesus proclama a Palavra na Sinagoga, os atos que ali proclamou já os tinha realizado pelos caminhos da Galileia, de modo que as ações de Jesus precedem a proclamação dos mesmos atos. Antes de ser uma proclamação, a Boa Nova é uma Presença e uma ação de Deus em favor dos homens em Jesus. Porque, como diz João, Deus amou-nos primeiro, com a sua ação.
As causas da rejeição de Jesus por parte dos seus podem ser as mesmas que podem assustar a relação das comunidades com os presbíteros: a demasiada familiaridade quando esta ignora o envio que é feito de presbítero por parte de Deus; o demasiado milagrismo que as pessoas exigem do pastor. Jesus não responde muito, como os presbíteros não são chamados a explicar muito. Ele segue imitando os antigos profetas, como Elias e Eliseu, que pela falta de reconhecimento da missão divina saíram a anunciar e realizar a mensagem divina a estranhos, através de palavras e ações.
Como aconteceu com Jesus, é útil de vez em quando irmos às nossas próprias terras, para ali vermos como é que as pessoas nos veem. Talvez o contacto com as gentes que nos viram crescer nos ajude a nós próprios a perceber que “marcas” pesam mais: se a familiaridade de sangue, se a irmandade de água (Batismo) e/ou se a missão do “óleo” da unção. Ou, até, se a nossa missão tende a ações milagrosas centradas na humanidade do padre ou na presença de Deus que salva integralmente.
Somos chamados a amar e a evangelizar a todos como irmãos, apesar da “kryptonite” que enfraquece a nossa missão, quando a demasiada familiaridade tende a desvalorizar o reconhecimento da missão de que somos investidos pelo dom de Deus.
Seguir o conselho de S. João ─ de que o amor a Deus e ao próximo andam sempre juntos ─ implica, por vezes, estar bem conscientes das fronteiras da pertença, sabendo que somos pertença de uma pátria maior, e respeitando também as fronteiras da jurisdição eclesiástica que é dada pelo bispo ao pároco de cada comunidade. De facto, um padre de fora pode transmitir com mais coragem e sem medo de retaliações a mensagem do Evangelho. Talvez com esta prática saudável Jesus previna hoje na Igreja que corramos o risco de sofrer o que Ele sofreu. Porque o objetivo da Boa Nova é a salvação das almas! Não o sucesso ou o bem-estar dos pastores. O centro da missão não é o padre, mas a relação salvífica entre Jesus e as pessoas.
