navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sl 127 (128), 1-2. 3. 4-5; L 2 Cl 3, 12-21; Ev Mt 2, 13-15. 19-23, na Festa da Sagrada Família (Ano A), reflexão em parte inspirada em Ermes Ronchi

Caríssimos irmãos e irmãs, caríssimas famílias:

As leituras de hoje nunca nos deixam de surpreender, à medida que em cada ano, por ocasião desta festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, temos a coragem de as aprofundar com o olhos postos na realidade, com a ajuda da luz da Palavra de Deus.

A primeira leitura do Livro de Ben-Sirá garante-nos que cuidar honrar os pais e cuida dos seus idosos obtém: o perdão pecados, alegria e longa vida. A caridade que dá alegria e nos faz ganhar o céu deve começar em casa.

Paulo, na segunda leitura, não só insere um dado de facto na cultura de Israel, da Grécia, de Roma e de todo o mundo ─ “Esposas, sede submissas aos vossos maridos” ─, mas dá um salto cultural ou um “voo de asa” afirmando “Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza”. Pela primeira vez, o Apóstolo insere o amor dentro de uma relação de casal. Porque as mulheres, como os homens, existem para ser amadas e para amar.

Mas o mais surpreendente está para vir: o evangelista Mateus deixa-nos de boca aberta, contando-nos que José e Maria fogem para o Egito como um casal de refugiados; dois emigrantes sem terra, na terra de todas as desgraças de Israel. Sim, o Evangelho aponta-nos como modelo um casal de refugiados. O que isto significa para nós, entre as notícias da vida real e os nossos presépios alojados nas nossas casas minimamente confortáveis?

José continua a sonhar, a acordar e a fazer-se à estrada, para proteger a vida de Jesus e de Maria. Sonha, abraça a sua família e mete-se a caminho. Parece que na atitude de José há três verbos ou ações que podem inspirar a vida das nossas famílias, hoje:

  1. Sonhar é o primeiro verbo. Inspira a ação de quem não se contenta como o mundo é. Disse Shakespeare que “a matéria com a qual são feitos os sonhos é a esperança”. Sonhar, na Bíblia, significa “orar” ou, evocando a sugestão de leitura do nosso Papa Leão XIV, viver “a prática da presença de Deus“, de um autor do séc. XVII, Lourenço Ressurreição, que foi carmelita cozinheiro e sapateiro remendão. Foi entre tachos e panelas que ele ganhou o hábito de se pôr permanentemente na presença do Senhor, fazendo até as tarefas mais insignificantes por amor desinteressando a Ele e desenvolvendo uma confiança absoluta n’Ele, porque Deus o habita. Assim, esbatem-se as fronteiras entre o templo e a cozinha, o retiro espiritual e o quotidiano agitado, a contemplação e a ação. Todo o tempo é tempo para o encontro com Deus; é tempo com Deus.
  2. A segunda ação é meter-se a caminho. Não ficar parados, mesmo se Deus oferece pouco, a não ser a direção pela qual fugir para protegermos as nossas famílias. É preciso viver a vida familiar como caminho e não como um eterno retorno ou círculo vicioso entre casa e as outras instituições (religiosas e/ou sociais). Precisa-se a liberdade vivida como inteligência, a criatividade e a persistência para alcançar os objetivos traçados através de projetos, itinerários. O Senhor não nos oferece um prontuário de regras, Ele acende objetivos nos corações, confiando-os à nossa liberdade inteligente.
  3. Por fim, o verbo cuidar. Significa levar consigo, apertar com os braços ao coração, proteger. A religião verdadeira começa aqui, como com os nossos primeiros pais Adão e Eva: duas pessoas enamoradas e um recém-nascido. Sucedeu assim e continuará a suceder. E é por aqui que nos guia também o Evangelho: quando um casal aperta no seu coração a vida do outro é presença de Deus em cada família que caminha em conjunto, peregrinos ou refugiados, pelos caminhos da esperança.

Por fim, um segredo: hoje, os pais querem muito amar os seus filhos e amam mesmo. Porém, com o afã de amarem muitos os seus filhos de muitos modos, por vezes, amam-se pouco entre si e isso não é bom. Não basta amar muito os seus filhos. A melhor maneira de amar os filhos é os pais amarem-se entre si. A Sagrada Família é exemplo disso e modelo de proximidade às nossas lutas e cansaços, às nossas crises e às nossas brigas, às dificuldades que enfrentamos. Foi em casa que Jesus começou a descobrir o valor da verdade, da justiça, da partilha, da liberdade, da igualdade entre as pessoas. Foi em casa que Jesus brincou e a amar, e a aprender a ser amado. Não se pode investir nos filhos mais dinheiro que tempo, verdade e atenção. A vida está difícil, mas nós às vezes também nos fartamos de complicar. Cansamo-nos, desgastamo-nos, para construirmos castelos encantados, perfeitos e grandiosos e nem reparamos que não há ninguém feliz a viver lá dentro. Muitos exigem dos filhos o que eles não são nem lhes dão. Outros obrigando-nos a fazer em algumas circunstâncias o que lhes proíbem noutras. A vida em família exige que, de tempos em tempos, as pessoas revejam as suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras. Derrubando ideias fixas ou absolutas, modos fechados de viver, que impedem o entrar do ar para arejar a própria vida familiar.

Sonhemos o projeto família. Caminhemos para metas comuns. Cuidemos das nossas famílias.