navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 52, 7-10; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4. 5-6 L 2 Heb 1, 1-6 Ev Jo 1, 1-18 ─ Solenidade do Natal do Senhor, Missa do Dia

Todas as luzes se veem melhor na escuridão. No meio de todas elas, há uma Luz que não se impõe e que nem a escuridão, nem algum clarão jamais conseguirão apagar. Pode ser contemplada, mas não manipulada. Pode ser partilhada sem se esgotar. É suficiente para todos os que a encontram. É eficaz na medida em que a deixarmos livremente iluminar as nossas vidas. É Jesus Cristo, que escolheu a nossa humanidade como “cera” para espalhar a Luz que Ele é, até àquele Dia em que já não haverá mais trevas.

Segundo Isaías, os pés do mensageiro que anuncia a paz são belos, porque ele traz a boa nova e proclama a salvação. A esperança de que todos os povos possam ver a salvação de Deus é algo que começa por pegadas simples e belas. O braço do Senhor descoberto à vista de todas as nações começa pelos bracitos do Menino Deus que se elevam, fora dos panitos em que está envolto, do berço humilde, querendo abraçar a humanidade dos que se aproximam d’Ele com simplicidade. Como habitualmente as crianças pulam dos braços de suas mães a quem lhes oferece um abraço.

O Verbo de Deus que João evangelista anuncia é Jesus Cristo, que Se quer fazer escutar, para que se faça em nós como que uma nova criação. Para isso é preciso reconhecê-l’O, recebê-l’O e por Ele (pelo seu Batismo) ser filho de Deus, vivendo segundo a sua vontade. Ele é o antes-do-antes, o antes-que-tudo, o que em cada ciclo da liturgia vem-depois-de-mim, mas que passa-à-minha-frente, porque existia-antes-de-mim. Quer dizer que a vinda do Messias não anula a nossa existência, mas, se O reconhecermos e acolhermos na nossa vida, Ele pode transformar a nossa existência para algo melhor, mais adiante.

O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Assumindo a nossa natureza, faz de nós membros do Seu Corpo que é a Igreja (cf. Bento XVI). Aquele que era invisível decidiu, doravante, mostrar-Se visível através dos crentes que vivem a fé em comunidade. Porque Ele ─ Cabeça ─ e o seu Corpo que é a Igreja são inseparáveis. Paulo diz que “muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho”. Ora, após a ressurreição de Cristo, é pela Igreja que Ele continua o seu dinamismo da implantação do Reino de Deus, instaurado por Ele durante os dias da sua vida terrena.

Desde a Páscoa da Ressurreição para a qual o Filho Unigénito de Deus nasceu que a Igreja vive em tensão para o Reino. Passe a metáfora das “funções tonais” ou “campos harmónicos” da música, a vida da Igreja é como aquele acorde da música (V grau) que gera tensão estável tendendo para o repouso da tónica (I grau) que seria o Reino da Paz plena. Aceitar o convite a adorar este Deus-connosco, em caca ciclo da Liturgia, faz com que os cristãos não se fiquem por acordes de alienação tímida ou afastamento melancólico (II e VI graus).

Através da sua presença de Ressuscitado, o Senhor Jesus vai sempre à nossa frente, anunciando-Se aos “descartados”, os considerados “impuros”, os “fora da lei”. E aos que O reconhecem como alimento e força das suas vidas, Ele fá-los continuadores da Sua missão de aproximar de Deus. “Verbo de Deus” não é um título, mas um serviço; não é uma abstração, mas uma ação em favor de. É a verdade do Amor de Deus que quer constantemente tornar-Se corpo. As três vindas de Jesus Cristo falam-nos de vários modos de Deus se manifestar em Jesus: o Verbo que era antes de tudo e que esteve na Criação e na história do povo de Deus; o Verbo encarnado na vida pública de Jesus sobre esta terra; o Ressuscitado-Cabeça-da-Igreja que encaminha o novo povo de Deus pela história.

Se Jesus incarnou e habitou no meio de nós foi para expandir as nossas vidas à novidade do Reino de Deus, não foi para nos perder e limitar a nossa humanidade. A “carne” que Ele assume agora na Eucaristia é o “cimo” mais elevado da Criação, para que alimentando-nos d’Ele possamos começar a viver da sua vida infinita.