Estamos quase no final do Advento e celebrá-lo na liturgia é um instrumento: serve para percebermos que toda a nossa vida é um “advento” sobre esta terra, na esperança da nova terra a que chamamos “os céus”. E esta esperança não acontece só entre a terra e os céus; acontece, também, entre os nossos trabalhos e as nossas canseiras, entre a nossa cultura social e religiosa e algo mais surpreendente que Deus vai manifestando nas nossas vidas pessoais, familiares, na vida da Igreja e, até, na sociedade.
Podemos encontrar estas manifestações da revelação de Deus onde? As leituras do Advento mostram-nos circunstâncias particulares: no Batista, no rei Acaz, em Maria, em José, no apóstolo Paulo.
Hoje, o Evangelho coloca diante dos nossos olhos a dúvida e o sonho de José. Diante da revelação do que está para acontecer no seio de Maria, José vê-se diante de uma realidade enigmática e dolorosa que o coloca em confronto com a cultura religiosa do seu tempo. Aquela gravidez inesperada e imprevisível põe em crise a história que ele planeava com Ela.
Para o judaísmo, o noivado era tão importante quanto o casamento… A reação perturbada de José é humanamente legítima. A sua forma de agir tão delicada ─ por um lado para não ferir a lei judaica e, por outro, para proteger Maria das consequências duras dessa lei ─ faz de José o “homem justo” que veneramos. E o que o faz um homem justo não é a prática legalística dos mandamentos, mas o facto de ser capaz de viver a justiça e a paz. É que cada uma destas não podem viver uma sem a outra: a verdadeira justiça dá a paz e a paz defende a justiça. Quando elas são recíprocas, então resulta o amor fraternal, a compaixão e o perdão. Em síntese, José é um homem justo porque vive a ternura com compaixão.
Toda a experiência terrena é uma oportunidade para aprendermos a não nos “escandalizarmos” com a vida do céu. Ao rei Acaz, que não queria pôr o Senhor Deus à prova com o pedido de um sinal, foi-lhe anunciado o maior sinal que pode ser dado a um ser humano: a virgem conceberá e dará à luz um filho que será chamado Deus-connosco”. A ao apóstolo foi dado um sinal: é de Cristo que recebe a graça e missão de apóstolo, a fim de levar aos gentios (não judeus) a obedecerem à fé, eles que também fazem parte deste projeto da salvação.
Dos problemas, enigmas e dúvidas da vida, como os que viveram Maria, José, João Batista, Acaz, Paulo, como se sai? O Papa Francisco costumava dizer que dos “labirintos” da vida só se sai olhando para cima. Para a Palavra de Deus! E como se olha para cima? Através do sonho. Na bíblia, a palavra “sonho” significa oração, escuta de algo novo, que nos surpreende e nos move para diante, sem medo que possa acontecer, mas tendo a certeza que Deus está connosco para realizar o impossível. Deixa é para nós o desafio de realizar o bem possível que está ao nosso alcance.
Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. ─ Diante desta Palavra, José foi obediente, quer dizer: soube escutar atentamente, de maneira a passar a dar importância mais às promessas de Deus do que aos medos e receios e imposições humanas.
