L 1 Is 41, 13-20; Sl 144 (145), 1 e 9. 10-11. 12-13ab; Ev Mt 11, 11-15. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Hoje, nas palavras de Jesus, encontramo-nos com o paradoxo do precursor que é grande e pequeno ao mesmo tempo. Como entender que o mais pequeno no Reino dos céus seja maior do que João? Não se trata de nenhuma categoria pessoal. Jesus referir-se-á ao nível de consideração que se encontra o Reino de Deus. Para podermos vir a fazer parte dele, é preciso que aconteça uma nova intervenção de Deus no ser humano, uma regeneração, um novo nascimento. Isto ninguém, nem mesmo João Batista, pode alcançá-lo por si mesmo. Porém, o mais pequeno e insignificante aos olhos dos homens, no qual se tiver realizado este novo nascimento, esta nova existência, é maior do que a personalidade mais eminente, como era João para os judeus. Não admira que até os fariseus e os saduceus viessem ao seu batismo (cf. Mt 3,7, no Ev. do Domingo II do Advento A).
Neste paradoxo, está escondido o segredo para vivermos a configuração com Cristo para o sacerdócio ministerial com muita humildade. Podemos, até, virmo-nos a sentir grandes como presbíteros-precursores de Jesus Cristo diante dos outros, na Igreja, mas cuidado! Qualquer Batizado é maior do que qualquer Sacerdote ordenado. Porquê? Por uma razão teológica muito simples e importante: o Sacramento do Batismo remete-nos para a ordem dos fins ─ a Salvação que é habitar no Reino dos céus; o Sacramento da Ordem situa-se na ordem dos meios, dos instrumentos para a promoção daquele caminho que leva à Salvação. Inclusivamente, na pessoa do Presbítero, ele haveria de considerar como maior o seu Batismo e como menor o seu Presbiterado. É curioso que a palavra escolhida pela Igreja para designar todo o tipo de ministério vem de minus+ter: é “menos”. Todo o ministério que deite a perder a grandeza do Batismo, em favor de qualquer tipo de domínio, está condenado à falência. O poder de dominação que aparecesse patente nos presbíteros desfiguraria o verdadeiro sentido do ministério ordenado. Prova do que se está a dizer é o facto de os documentos da Igreja sobe o sacerdócio ministerial indicarem que as comunidades devem ser providas dos seus pastores num número suficiente e bem distribuído (nem a mais, nem a menos), e numa missão em solidariedade com outros ministérios, tendo em conta a missão de que todos são incumbidos: cooperar na salvação dos fiéis (cf. Presbyterorum Ordinis 2,4,6,7,10; Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros; Código de Direito Canónico, 515‑519; 528‑530; 517 §1‑2).
Talvez por causa da desordem que desfigura, por vezes, o verdadeiro sentido das vocações de especial consagração é que “o Reino de Deus sofre violência”. Estamos perante um dos textos mais difíceis de interpretar para os biblistas. Poderá tratar-se das exigências do Reino, que fazem com que uma alma apaixonada se lhe entregue absoluta e incondicionalmente? Pode ser. Porém, os biblistas inclinam-se para esta interpretação: fazer “violência” a Deus através dos próprios meios poderosos e vistosos de salvação poderia significar uma atitude farisaica, amplamente censurada por Jesus. Talvez se possa interpretar melhor aquela afirmação do Evangelho a partir de uma sentença vulgar no judaísmo farisaico: “forçar o fim”. Nos círculos judaicos havia a convicção de que o fim podia ser antecipado: “se todos os judeus fizessem verdadeiramente penitência num único dia, o fim viria nesse mesmo dia”. Ora, é esta convicção judaica que está subjacente à primeira parte da nossa misteriosa frase: o Reino de Deus “tinha sofrido violência”, ou seja, tinha sido forçado, desde os dias de João até agora. Porém, embora João tivesse apontado para ele, foi o Messias que tornou esse Reino presente. Com Ele tinha chegado o futuro esperado pelos judeus, a nova era.
Ao comparar o Batista com Elias, Jesus quer comparar também os contextos de idolatria similares em que eles anunciam o verdadeiro Deus nas suas intervenções históricas. Face ao perigo de qualquer ser humano querer registar a “patente” do novo Reino que se aproxima, o próprio João Batista, sem qualquer sombra de dúvida, com humildade atribui Àquele que vem toda a supremacia. Por isso, João avisa: “O machado já está à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo” (Mt 3,10). Quer dizer que, doravante, as exigências do Reino dos céus são as mesmas para todos. Não há “vistos gold”. E é aqui que está a “violência do Reino”: é que ele também seja causa de escândalo para alguns que possam ver as suas expetativas frustradas. Qualquer expetativa ou esperança do Reino de Deus que não passe pelo Espírito de Cristo pode ficar frustrada ou, até, uma “esperança de ficção”.
João Batista é visto como o Elias esperado no fim dos tempos para pôr em ordem tudo quanto está desordenado na relação do homem com Deus. Jesus afirma que estas expetativas se realizaram na pessoa de João Batista. “Quem tiver ouvidos oiça”. E o desafio melhor para as consciências ainda está para vir: se João é o Elias que estava para vir, então quem é Jesus? Para nós, cristãos, é Ele Aquele que havia de vir. Estamos, pois, no final dos tempos. E isto significa muito. Portanto, não temos permissão para forçarmos o Reino de qualquer maneira. Pode acontecer que nos despistemos do centro e do essencial. Conforme ao solitário Elias sucedeu Eliseu, não se sabendo qual tenha sido o seu fim (e por isso à que é recordado sempre), também ao bom cristão e ao bom sacerdote o melhor que lhe pode acontecer é que da sua vida não se lembra o que eles fizeram, mas só que Cristo tenha ficado patenteado em cada coração humano com quem se cruzaram.
Thomas Merton disse que “O princípio do amor é deixar que aqueles que amamos sejam eles mesmos na sua totalidade e não distorcê-los para que se adequem à nossa própria imagem. Caso contrário, só amaremos o reflexo de nós mesmos que encontramos neles”. Então, o Advento é mais uma oportunidade para amar a Deus deixando-O ser Ele mesmo, como Ele quer que se apresente com o seu Reino. Deixemo-l’O soprar em nós com o seu Espírito Santo. É Ele que edifica o nosso verdadeiro ser.
APP Sustentar o Batismo de todos
Tenho cá para comigo que por vezes se desvaloriza o ser enxertado em Cristo pelo Batismo em relação ao ser configurado com Ele a partir de uma vocação de serviço ministerial. Será por causa do tempo e profundidade da formação? Os formandos para o presbiterado estudam 7 a 8 anos, sim. Mas… a formação do batizado não é toda a vida?
Santo Agostinho teve a humildade de afirmar: “Sou bispo para vós, sou cristão convosco. Aquele nome significa um encargo recebido, este exprime o dom da graça; aquele é ocasião de perigo, este é caminho de salvação”. O bispo é um pastor (bispo) para o povo, mas, acima de tudo, é um cristão igual aos outros, um irmão no corpo de Cristo, um servo do mesmo Senhor, lembrando que o episcopado é um serviço e não uma superioridade.
Então, é bom que todos juntos ─ todos os tipos de ministérios que forem precisos (nomeados, instituídos, ordenados) e não mais dos que forem precisos ─ trabalhemos para a edificação do Corpo de Cristo que é um corpo de Batizados. A vida ministerial não se trata de sustentar meramente a vida dos consagrados, mas a de sustentar a vida batismal com a qual nos é aberta a porta da salvação.
