L 1 Is 40, 25-31; Sl 102 (103), 1-2. 3-4. 8 e 10 Ev Mt 11, 28-30. Os itálicos são das admonições do dia.
Na liturgia de hoje, tanto o profeta como o Senhor vêm ao encontro da nossa fraqueza, trazendo-nos a força da esperança para sermos capazes de aguardar a sua vinda sem desfalecermos. Para isso, é preciso despertarmos a confiança em Deus, que tão facilmente tendemos a perder. Mas Deus não muda, Ele é um Deus eterno, que não se cansa nem desiste de vir ao encontro do seu povo para o salvar. Cada Advento o recorda e quer fazer renascer em nós a esperança e a confiança n’Aquele que é capaz de rejuvenescer os mais fatigados.
As leituras de hoje falam-nos de um SPA especial, não como os que o consumismo vendem para um bem-estar meramente físico. O “SPA” que Jesus nos oferece é a relação com Ele. A sua forma de se relacionar connosco rejuvenesce todo o nosso ser: primeiro, acolhe incondicionalmente quem chega quebrado; depois reabilita a lenta da confiança, esperança e sentido de vida.
Mas, ao contrário de um SPA de consumo, não se trata de bem-estar “à la carte”, nem de fuga da realidade: Jesus não retira os fardos do mundo, dá-lhes um novo modo de ser carregados, em aliança com Ele. O “jugo” evoca submissão a uma autoridade, mas aqui é imagem de caminhar ao lado de Jesus, sob a sua direção, em mansidão e humildade. O “tratamento” deste “SPA” é aprender o seu coração manso e humilde, isto é, deixar que Ele reeduque a forma de se relacionar com Deus, com os outros e consigo mesmo, o que paradoxalmente torna leve o fardo e suave o jugo. Portanto, o descanso que Jesus nos propõe não é desligado da vida, mas um descanso pascal. Trata-se de entrar nas mãos de Jesus, que cuida, mas também converte, cura feridas e envia de novo à missão. Este itinerário de descanso é feito de oração, de Eucaristia, de reconciliação, de acompanhamento espiritual e de um trabalho diário feito de partilha de dons, na simplicidade e na confiança.
O padre jesuíta Vasco Pinto de Magalhães tem razão quando garante que “Só avança quem descansa” (Apostolado da Oração, 2023). Afirma quedescansamos para viver (eternamente) e não vivemos para descansar (só no final da vida). Para encontrarmos o equilíbrio que nos permite ser bons discípulos, precisamos de pausa para o crescimento espiritual e humano, num mundo apressado. Enquanto a vida moderna nos leva a buscar atalhos e a uma felicidade baseada no “ter” e no “consumir”, o descanso que Jesus nos oferece na relação com Ele é eterno e é preciso a treiná-lo desde já, valorizando a sabedoria do tempo e não caindo na tentação da pressa. O profeta fala de três idades diferentes: “os jovens”, “os adultos” e “os que esperam no Senhor”. Esta é a única “idade” que não deixa cansar ou fatigar e tropeçar ou vacilar. Em qualquer idade podemos aprender a permanecer esperando no Senhor, confiando sempre n’Ele. Apoiados n’Ele, nenhuma circunstância menos boa nos parecerá ter a última palavra.
Um formador meu dizia com uma certa graça que o céu não era uma espécie de camarata onde os nossos entes queridos que já partiram estariam a dormir. A vida eterna é um caudal de vida com dinamismo sem fim e sem limites de bem. Então, é preciso preparar bem a entrada nessa vida que nos fará experimentar uma infinidade de experiências no contacto com a infinita beleza de Deus, que não descansa e trabalha sempre.
(APP) David Foster Wallace conta uma história de um peixe idoso que passa por dois peixes jovens e lhes pergunta “Olá, rapazes, como vai a água?”. Os dois peixes jovens olham um para o outro e perguntam-se “Mas que coisa é a água?”. Esta anedota dos peixes (cf. “A utilidade do inútil” de Nuccio Ordine) serve para considerar a utilidade do que é considerado inútil, como a educação e a cultura; inútil como mercadoria numa sociedade que considera útil só o que é rentável ou pode ser vendido e gerar lucro. Poderíamos indicar à luz desta Palavra que o descanso conforme Jesus o apresenta, numa relação íntima com Ele, algo que é muitas vezes considerado, quer dentro da sociedade, quer dentro até das comunidades, como uma utilidade inútil. O descanso espiritual é das coisas que dá sentido à vida, e que faz valorizar a vida humana e espiritual como a alta dignidade como Deus a criou. A consciência desta dignidade depende da compreensão de tudo o que é útil aos olhos de Deus. Estamos rodeados de necessidades que nem sempre levamos a sério. A liturgia do Advento é um alerta para isto, no meio da mercantilização do Natal pelas agências do consumo, que serve para considerarmos a força de Deus presente nas coisas simples que só o descanso na relação com Jesus nos permite perceber e usufruir.
Que o Advento seja esta oportunidade para pararmos neste descanso que Jesus nos propõe, um equilíbrio que nos leve a estar mais em Deus e podermos vir a viver segundo a sua lógica de acolhimento e amor.
