navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 40, 1-11; Sl 95 (96), 1-2. 3 e 10ac. 11-12. 13 Ev Mt 18, 12-14

Se um homem tem uma ovelha que se extravia, não deixa as 99 para procurar aquela que se perdeu? Do mesmo modo, o Pai do céu não deixa que se perca nem um desses pequeninos. Hoje, Jesus revela-nos algo extraordinário: aos olhos de Deus ninguém é descartável; nenhum de nós é “só mais um” no meio da multidão; cada um de nós constitui um valor infinito para Deus, quando nos sentimos perdidos, envoltos em sofrimentos, erros e dúvidas. Ele não espera que encontremos o caminho de volta sozinhos, mas aproxima-Se com amor e misericórdia.(Cf. Vatican News)

No Evangelho de hoje, Jesus revela-nos a intenção última de todas as vindas de Deus ao encontro dos homens: o Senhor não quer que ninguém se perca, nem sequer “um só destes pequeninos”! Esta intenção última é razão para vivermos aquela consolação com que começa o trecho de hoje da profecia de Isaías. É Deus que dá esta tarefa ao profeta: “Falai ao coração e dizei-lhe em alta voz”. Fixemo-nos um pouco neste convite: é preciso deixarmos que pela sua profecia Deus fale aos nossos corações. E para que ela soe em alta-voz, precisamos de baixar um pouco as nossas vozes. É um convite a que a nossa oração seja, neste tempo, mais em “surdina” (em música, é aquela peça móvel que se aplica a muitos instrumentos musicais para lhes abafar e suavizar a sonoridade; significa, também, em voz baixa, sem ruído). Só assim conseguiremos ouvir o que Deus tem para nos dizer com a vinda renovada do Seu Filho. Que coisas novas Ele terá para nos dizer? Só as poderemos escutar se as nossas ideias e esquemas falarem mais baixo.

A seguir, há uma informação e uma tarefa:

  1. Uma informação que é suficiente para o povo não ficar indiferente à intervenção de Deus: “terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa, porque recebeu da mão do Senhor duplo castigo por todos os seus pecados”. Isto quererá dizer que trabalhos que “aturámos” e as coisas que sofremos até aqui Deus as aproveita para a nossa conversão. Deus os considerou parte do caminho que nos leva até Ele. É como a sabedoria popular diz diante das coisas difíceis: “que isto me valha pelos meus pecados”. É verdade que o Livro dos Provérbios nos avisa “Quem poderá dizer: «O meu coração está puro, estou limpo de pecado?»” (Pr 20,9). Pois o profeta diz-nos: é o Senhor que no-lo pode dizer, não nós. De facto, ninguém é juiz em causa própria. Como rezamos na oração sobre as Oblatas: “como diante de Vós não temos méritos”. Ele é o único que pode investir em nós um futuro novo com uma amnistia misericordiosa. A “voz” de um GPS é uma boa parábola do coração de Deus quando nos perdemos: “vamos recalcular o seu itinerário” ou “vamos recentrar a sua viagem”. Não dá nenhum ralhete, pois não há tempo a perder com isso.
  2. Uma tarefa que nos leve a fazer a diferença: “Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas”. Há sempre em nós atitudes a elevar, como a luz do Senhor em nós que não se deve esconder, e há, também, atitudes que somos chamados a corrigir, a respeito de coisas que não dignificam a nossa vida e danifica a nossa dignidade de filhos de Deus, chamados a ser, pelo Batismo, discípulos-missionários.

Uma “ignição” que nos pode ajudar a ouvir bem aquela informação e a iniciar esta tarefa do Advento é “clamai!”. O clamor é a alternativa ao murmúrio. O murmúrio dá voz alta às nossas sombras; o clamor, por sua vez, dá alta voz à vontade Deus a nosso respeito, a respeito dos nossos relacionamentos, a respeito da nossa vocação e participação na vida da Igreja, a respeito da plenitude do Reino que nos está reservada.

Hoje, na sociedade, celebram-se efemérides que necessitam do clamor crente da humanidade: o Dia Internacional Contra a Corrupção, o Dia Internacional das Vítimas do Crime de Genocídio e o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência. Se quisermos treinar o “clamor” podemos começar por temas como este. O clamor coloca-nos do lado de quem sofre. Por vezes, os murmúrios faz-nos só estar contra quem os vitimiza, deixando a sós quem sofre. Deus dá primazia à sua presença na vida de quem sofre, trabalhando sorrateiramente, também, na vida de quem faz sofrer.