navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 11, 1-10; Sl 71 (72), 2. 7-8. 12-13. 17 L 2 Rm 15, 4-9 Ev Mt 3, 1-12, no Domingo II do Advento (Ano A)

Irmãos, o tempo de Advento é este tempo para contemplar e treinar a Esperança. Esta não é uma palavra ou realidade abstrata e inacessível, mas uma presença na nossa vida e, por consequência, uma forma de estar presente na vida dos outros. É, para nós, Jesus, esta Esperança que não engana. Para isso, Ele faz-Se presente na nossa vida através da Palavra, da Eucaristia e da Caridade.

O dons do Espírito Santo não vêm de cima sem passar pela contemplação do testemunho que deles deu Jesus incarnado. A profecia de Isaías anunciou esse “rebento” que sairia do ramo do tronco de Jessé, sobre quem repousam os dons do Espírito do Senhor, concretizando com ações simples que nem sempre são assim tão comuns, como: não julgar segundo as aparências, não decidir pelo que se ouviu dizer, lidar com os infelizes e os humildes com justiça, usar o “chicote” da palavra diante de situações graves. É com ações concretas como estas que se anuncia um tempo de bonança e de paz, como a que o profeta descreve: de um convívio pacífico entre os seres criados. Parece uma utopia o que Isaías anuncia, da relação entre animais inconciliáveis; como para nós o fim da guerra também parece uma utopia. A lição que podemos tirar para nós, hoje, é que deixemos a Deus as coisas impossíveis e tratemos de colaborar com Ele nas coisas possíveis. Vale mais temer a Deus, quer dizer, respeitá-l’O assim como às leis da sua Criação, do que ter medo uns dos outros. Respeitar a ordem do amor. E o medo é o contrário do verdadeiro amor (não o ódio, como diz Fábio Rosini, em “A Arte de Curar”), que uma espécie de autosabotagem que acaba também por sabotar a vida dos outros (e da criação), pela falta de relacionamentos sadios e pacíficos.

Para nós que vivemos o Jubileu da Esperança, o Apóstolo Paulo dá-nos testemunho de como podemos ter ou viver a esperança: as Escrituras são uma fonte de paciência e de consolação, instrução para que possamos ter os mesmos sentimentos uns para com os outros, segundo Cristo Jesus. Somos convidados a acolhermo-nos uns aos outros como Cristo nos acolheu a todos. Paulo ensina-nos outra coisa importante: Cristo fez-Se primeiramente servidor dos judeus, não para lhe dar a exclusividade da experiência da fé (que também é possível para os gentios), mas para confirmar diante de todas as nações que Deus cumpre o que promete. Portanto, se a nossa comunidade sente a presença de um Deus que cuida de nós, então apregoemos aos de fora que é verdade que existe um Deus que cuida da humanidade inteira.

Um exemplo claro e concreto do que Paulo diz é a pessoa de João Batista, de quem profetizou Isaías ao dizer «uma voz clama no deserto: “preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”». A sua forma de habitar, de vestir e de se alimentar atraía gente de várias direções, que se sujeitavam à purificação, com medo do que estava para vir. Ele, porém, exortava-os a viver conforme o arrependimento que manifestavam. Não bastava ter o Deus de Abraão como o verdadeiro Deus, era preciso viver de forma a dar frutos. Ele batizava com água, quer dizer: regava estas sementes de esperança; e anunciava Aquele que daria o Espírito Santo para a consumação de tudo.

Os profetas, ao longo da história, tiveram sempre uma dupla missão: denunciar o mal e anunciar o bem. Foi assim que fez Isaías, João Batista, Paulo, os Bispos, os Presbíteros, os Diáconos, todos os homens e mulheres Batizados de todos os tempos. Denunciar o mal e anunciar o bem, são duas faces da mesma missão dos profetas que somos chamados a ser. Anunciar o bem sem a denúncia das injustiças é como plantar uma árvore num terreno pedregoso; denunciar as injustiças sem o anúncio do bem é como ter um terreno fértil e não plantar lá os dons que venham a dar fruto.

Então, enquanto esperamos a última vinda do Senhor, estejamos atentos à Sua vinda intermédia: a sua Presença no meio de nós e, sobretudo, na pessoas dos mais pobres e frágeis. A conversão que nos é proposta é uma necessidade existencial, antes de ser uma necessidade ética. Não consiste simplesmente em reconhecer os nossos pecados. Não basta dizer-se filho de Abraão ou saber de cor o catecismo e o credo. Converter-se é render-se à beleza do encontro com Jesus, ali onde Ele quer ser encontrado. Converter-se é entrar numa dança a dois entre o eu e o tu que é Deus e em que Deus é o condutor dessa dança.(Pe. Pedro Rodrigues). Há uma daquelas lendas que conta que um dia um crente chegou ao céu e apresentou-se com as suas mãos puras dizendo a Deus “olha, Senhor como tenho as minhas mãos puras para Ti”. E o Senhor respondeu-lhe “Sim, estão puras, mas vazias”. Certamente este crente nem sempre deixou que Ele se encontrasse na pessoa do pobre ou do marginal miserável, com o qual era chamado a sujar as mãos, mantendo puro o coração.

Como João Batista, há duas coisas que podemos fazer:

  1. Emprestar a nossa voz a Deus, para que Ele possa dizer hoje aos nossos contemporâneos, com palavras claras, que os ama tanto que que quer que as suas vidas deem frutos. Avisos para que os nossos amigos e vizinhos não desperdicem os dons que Deus lhes deu.
  2. Em segundo lugar, “dar pernas às nossas palavras”. Vi dar esta sugestão um especialista em programação neuro-linguística (PNL). Darmos pernas às nossas palavras ─ “walk your talk” ─ é uma expressão inglesa que sintetiza muito bem a necessidade de ser coerente com as próprias afirmações. Por vezes, pensamentos circulares e crenças limitadoras que não nada que ver com o Evangelho influenciam o nosso viver. Muitas vezes deixamos que os nossos objetivos fiquem nebulosos e pouco atraentes, deixando-nos dominar por uma ansiedade excessiva, com medo do que pode correr mal. Mas fazer pouco é melhor do que não fazer nada. Por vezes o medo e o negativismo congelam o nosso coração. Experimentemos colocar as palavras como “poldras” no nosso caminho; será que todas seriam pedras seguras para nos levar para outra margem? Então, é bom darmos pernas às nossas palavras para experimentarmos dar passos mais seguros em direção a Deus e ao próximo.

O mar da indiferença em que vivemos corresponde também, em certa medida, ao mar da incoerência entre o dizer e o viver. Como garante o P. Nuno Santos, o cristianismo é uma provocação permanente e uma convocação permanente à dimensão comunitária. Ainda que eu deva pessoalmente relacionar-me com Deus, com cada um dos outros, eu não posso salvar-me individualmente. A esperança não é uma palavra, é essencialmente uma relação; não uma relação a correr, não uma relação superficial, mas uma relação que cria mudança de vida, uma relação performativa.

À volta do dia internacional do voluntariado (5 de dezembro), um professor de EMRC disse que disse que a sociedade está cheia de gestos de doação e que importa encontrá-los e multiplicá-los, mas que ainda há muito pessimismo, porque não saímos de nossa casa. Quando nós vamos ao encontro do outro, em atividades de voluntariado ou outras, percebemos que, afinal, há tanta gente que quer o bem comum, há tanta gente que disponibiliza do seu tempo. Vamos, pois, deixar-nos encontrar por Jesus e procuremo-L’O também no irmãos nas suas mais variadíssimas situações e encontraremos sentido e, também, completude para o que aqui na Eucaristia estamos a celebrar.

Deixemo-nos, então encontrar por Deus, e procuremos ir ao seu encontro nos irmãos, sobretudo os que mais sofrem.