navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 2, 1-5; Sl 121 (122), 1-2. 4-5. 6-7. 8-9 L 2 Rm 13, 11-14 Ev Mt 24, 37-44, no Domingo I do Advento, Ano A

O Avento é, antes de tudo, a espera de um regresso. Jesus Ressuscitado prometeu aos seus discípulos que regressaria. O fim do mundo, para os cristãos, não é nem uma guerra nuclear, nem um cataclisma, nem outra coisa qualquer deste género. É o regresso do Senhor. Por conseguinte, o Advento é este tempo de espera no qual nós queremos predispor-nos a acolher o Senhor que regressa. Portanto, o Advento é, antes de mais, um convite a olharmos para o futuro. Maria representa e condensa em si tudo o que é a esperança cristã. Maria acompanhou o processo da morte de Jesus, contemplou a sua ressurreição e ajudou os primeiros cristãos a saber a esperar pelo regresso do Senhor. Assim, Maria, ao longo do Advento, é a pessoa mais capaz de nos ensinar as dimensões mais importantes da espera. (Cf. Padre Gian Matteo Roggio)

A dimensão da espera que hoje nos é colocada diante do nosso olhar é VIGIA. E como podemos vigiar nos tempos de hoje? Como tornar prática neste tempo em que vivemos a tarefa da vigilância? Vigiar o quê?

O escritor Byung Chul-Han, nas Conversas com Deus (Relógio d’Água, 2025), chama-nos à atenção para um aspeto urgente: a atenção. Porquê? Porque a nossa perceção tornou-se voraz, perdeu a capacidade contemplativa, come constantemente até ficar empanturrada, devorando estímulos e vícios, ocupada a comer já não consegue ver. Empanturrada com lixo informativo e comunicativo, lixo sonoro e visual. Só consome e é levada a estar indiferente ao que nos pode levar à salvação.

A atenção, por seu lado, e a capacidade de voltar a olhar para o essencial que não está na superficialidade, mas na profundiddade da nossa vida. Quando Jesus fala do tempo de Noé e refere que “comiam e bebiam” e “não deram por nada” até “que veio o dilúvio”, é para nos ajudar a perspetivar melhor quanto à sua vinda, à vinda do Filho do homem. E o jogo de palavras que usa a seguir “de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado” sugere que dependendo em que situação nos encontremos – mais na superficialidade ou mais na profundidade do viver – assim acontecerá diante da forma como hoje Jesus Se apresenta diante dos nossos olhos. É que se não estivermos atentos, Ele pode passar despercebido aos nossos olhos.

A Palavra sugere que Ele virá como um “ladrão”, mas, como nos têm vindo a dizer os Santos Padres, “Ele não tira nada, dá tudo”. Estaremos alerta para receber o que Ele nos quer dar na sua presença? O Advento não é meramente a espera do nscimento de Jeus. Ele já nasceu, já viveu, já morreu e já ressuscitou. O Advento é um tempo de esperar que Deus nasça em mim, dentro de mim e de mim para os outros.

O Advento é o tempo de aprimorar o desejo, de nos tornarmos desejosos de algo determinante para a salvação: o encontro com Cristo. E não se trata só de sermos nós a proculá-l’O, mas de nos deixarmos encontrar por Ele. Ele virá bater à nossa porta. Para isso, poderemos adotar o “jejum da alma”. Na Quaresma costumamos fazer jejum do corpo, ou seja, não comermos durante algum tempo ou comermos uma refeição mais simples. Os entendidos na matéria dizem que quando estamos mutio tempo sem comer as células boas do nosso corpo comem as células más. Por isso, é que o jejum também é recomendado por alguns médicos por razões de saúde.

Então e o que será o jejum da alma? É a possibilidade de nos abstermos de tanta informação que paira na hipercomunicação a que estamos sujeitos, procurando um certo recolhimento no silêncio, para que a nossa alma, que é o nosso interior, possa, também, “comer”, quer dizer, discernir o que já está dentro de cada um de nós, avaliando o que não está bem e valorizando o que é bom em nós.

Apenas a alma que “jejum” poder ver, pode estar atenta. Ao jejuar, destrói a parte inferior e voraz. Só esta “autofagia” da alma nos conduz a Deus. A parte eterna digere a parte mortal e transforma-a. A fome da alma é difícil de suportar, mas não há outro tratamento para a doença da infiderença ou desatenção. Só assim é que, como sugere o Apóstolo Paulo, nos poderemos “levantar do sono” e dar conta que a salvação está bem perto de nós. Onde? Num ato de caridade e de esperança que possamos fazer com fé a um pobre ou a um marginalizado. São estas as “armas da luz”! Andar “digno” é andar ocupado com boas obras, de maneira que já não teremos tempo de nos ocuparmos com excessos que nos destruam ou demorem a visão da salvação. A salvação que Jesus nos oferece não é só um acontecimento no futuro. Jesus quer salvar-nos hoje!