navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Dn 1, 1-6. 8-20; Sl Dn 3, 52. 53 e 54. 55 e 56; Ev Lc 21, 1-4, na memória dos Santos André Dung-Lac, presbítero, e companheiros, mártires

A cena evangélica de hoje mostra-nos Jesus a contemplar as imediações do tesouro do Templo de Jerusalém. E viu o contraste: os ricos que deitavam na arca do Tesouro as suas ofertas e uma pobre viúva a deixar apenas duas pequenas moedas.

As lições que Jesus, porventura, nos queira dar são as seguintes: o dom dos ricos e da viúva não se limitam à oferenda de alguns bens materiais; o que cada um oferece é, no fundo, a riqueza da suas próprias vidas; a pequena oração de uma viúva sincera vale mais do que toda a dedicação de um escriba totalmente ao serviço da lei ou da vida religiosa do seu povo; a viúva entregava a sua vida toda no templo, enquanto que os escribas corriam o risco de entragar só a aparência e não toda a sua realidade. Pode aocntecer assim, também, connosco, aquando do esmerado cuidado em cumprirmos bem as normas litúrgicas ou as coisas aparentes da beleza externa da liturgia: de nos esquecermos de reportarmos ali também a verdade profunda da vida pessoal que o Senhor quer que lhe ofereçamos com humilde sincderidade. É que há toda uma beleza interior que é só vista aos olhos de Deus. E Jesus dá mais importante a esta beleza interior, que podemos considerar como recíproca ou interdependente com a beleza externa.

Tomás Hálik, no seu recente livro “Sonho de uma nova manhã” (Paulinas 2024, p. 30), confessa que não lhe é muito fácil, na Igreja, distinguir entre conteúdos e formas: “Muito do que era considerado como conteúdo, como o seu núcleo — e, por isso, considerado como intocável e inalterável — aparece-nos hoje mais como uma forma de expressão do verdadeiro núcleo. Este repousa muito mais fundo. Muitas definições de crença, muitas formas litúrgicas, cânones do direito eclesiástico e estruturas institucionais foram confundidas com o que deveriam expressar. E, ao tornarem-se absolutas, tornaram-se mais ídolos que ícones, obstáculos em vez de apoios no caminho para o ‘núcleo das coisas’. Deixaram de cumprir o seu papel, que deveria ser apontar para cima de si e para trás de si. Este núcleo é a própria vida de Deus que desemboca na história humana. A essência da Igreja é ação, processo — é a continuação do mistério da encarnação, morte e ressurreição de Cristo. Se pensarmos teologicamente sobre a Igreja, não podemos separar estes dois lados da sua vida — a vida de Deus, a presença misteriosa de Cristo, e a forma institucional visível e historicamente transformadora —, nem podemos confundir uma com a outra. O fluxo da vida de Deus ultrapassa sempre a capacidade das estruturas humanas e da compreensão humana. Tem que ver com o mistério inesgotável que possibilita uma procura subsequente, uma compreensão mais profunda”. Para este teólogo, também as estruturas são resultado da Encarnação e são chamadas a entrar no processo pascal de transformação.

Num interessante artigo da Revista de Espiritualidade (n.º 88, 2014, p. 390) intitulado “Experiência de Deus em tempos de pântano espiritual?”, o seu autor, João Manuel Teixeira da Costa, fala da “inclemência sócio-cultural que se vem abatendo sobre a Igreja”. Refere que nuns lugares ela morreu, noutros, onde foi florescente, tornou-se deficitária e pessimista. Em muitas comunidades não há calor ou, se há, esvai-se pelas fendas mal cuidadas. À medida que o frio entra, os fiéis vão-se retirando. Alguns mantêm-se porque têm saudades do sagrado e sentem um latido pelo absoluto. Muitos vão beber a outras torrentes, apesar de nelas não se beber a melhor das águas. Em tempo de pântanos espirituais e, também, de certa carestia de espiritualidade, podemos ainda assim sublinhar que “a espiritualidade é prévia a qualquer referência à religião. Usando uma metáfora: espiritualidade seria a água, a religião o copo. Ou ainda, a espiritualidade seria a religião da terra prometida que anelamos, a religião o mapa que a ela nos conduz. A religião é apenas o meio de acesso, não é o anelo nem o fim último. Sempre que a religião pelas suas práticas, crenças e rituais tende a absolutizar-se par que tudo gire em torno de si, lamentavelmente estreitece o copo e rejeita a água, pelo que pode dizer-se que a religião deve ser regada pela espiritualidade para se tornar mais benéfica e eficaz a pessoa humana. Porque o território da espiritualidade é um território aberto e partilhável, há de entender-se que cada religião encontre a maneira sua de interpretar e expressar a relação com o mistério e os enigmas da vida”.

No seu “Postal do Dia” de 28 de outubro de 2025, o jornalista Luís Osório traça carateriza “A diferença entre os ricos e os pobres”, em que, sem querer generalizar, manifesta a convicção de que…

  • Os pobres são as pessoas que têm menos que dão mais.
  • Que o pobre dá emprestado o pouco que tem.
  • E que o rico pede garantias.
  • Que o pobre gasta as economias num jantar com família e amigos quando recebe.
  • E que o rico é “agarrado” ao dinheiro fora do que estipulou gastar.
  • O pobre vive para ter umas alegrias.
  • O rico vive para multiplicar o dinheiro que tem.
  • Os pobres vão muitas vezes para a cama com um frio na barriga.
  • Mas os ricos vão para a cama com fome de ganhar mais.
  • O pobre dá sem esperar nada em troca.
  • O rico, quando dá, chama-lhe responsabilidade social.
  • O pobre dá e fica mais pobre.
  • O rico dá e fica mais rico.
  • Até nas crises…
  • O pobre vai ao chão com o cataclismo.
  • O rico enriquece mais com o cataclismo.
  • Para o rico o dinheiro puxa dinheiro.
  • Para o pobre a falta de dinheiro puxa o sonho de melhores dias.

E termina: “É mais do que compreensível. Afinal, Deus foi injusto para os ricos. Aos coitados, deu-lhes dinheiro. Mas aos pobres ofereceu-lhe o Céu. Valha-nos isso.”

Na sua Mensagem para o IX Dia Mundial do Pobre, no n.º 2, o Papa Leão XIV disse que «O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do poder e do ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas. A sua esperança só pode repousar noutro lugar. Reconhecendo que Deus é a nossa primeira e única esperança, também nós fazemos a passagem entre as esperanças que passam e a esperança que permanece. As riquezas são relativizadas perante o desejo de ter Deus como companheiro de caminho porque se descobre o verdadeiro tesouro de que realmente precisamos. Ressoam claras e fortes as palavras com que o Senhor Jesus exortou os seus discípulos: «Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam» (Mt 6, 19-20).

Hoje rezo para que os fiéis da Igreja, imitando Jesus Cristo, seu Fundador, Mestre e Bom Pastor, sejam sinal de fraternidade e de solidariedade uns para com os outros, de modo a ser sacramento de slavação universal a partir de uma melhor defesa do bem comum. Oremos, irmãos.