navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1″ Sb 1, 1-7; Sl 138 (139), 1-3. 4-6. 7-8. 9-10 Ev Lc 17, 1-6, na memória de São Leão Magno, papa e doutor da Igreja. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007. Os itálicos são das admonições do dia, em liturgia.pt.

No Evangelho de hoje temos três unidades literárias:

  1. Uma que é um convite a evitar cuidadosamente qualquer dano à pessoa mais frágil. Não causar dano é não oferecer escândalo ao pequeno. Pequeno é a pessoa que carece de firmeza, que é débil, instável, delicada. Todos eles têm lugar na Igreja, que não é só para justos e perfeitos. O mais perverso de todos os pecados seria o que não permite que os mais vulneráveis não tivesse lugar na comunidade. E cuidado! Mesmo assim, convém notarmos que esses que Jesus considera que é preciso incluir são precisamente aqueles com quem Ele convivia na sua vida pública. O “pequeno” é aquele que, estando à mercê dos outros, pode correr o risco de ser marginalizado por eles, pro aqueles que têm o poder e se consideram sábios. Quando a Igreja consente na tentação de se converter num cenáculo dos justos onde só se admitem os perfeitos e se esquecem os pequenos, ignorantes e indefesos, rejeita a verdade original de Jesus Cristo. Ele visitou-os e ofereceu-lhes toda a força da sua ajuda. Assim há de ser a atitude dos cristãos. Já começa por ser um escândalo a ideologia da marginalização dos fracos. Para São Leão Magno, “a integridade do corpo sagrado subsiste na diversidade dos seus membros” e “A diversidade de funções não é de modo algum causa de divisão entre os membros, já que todos, por mais humilde que seja a sua função, estão unidos à cabeça. Na unidade da fé e do Baptismo, formamos uma comunidade indissolúvel, na qual todos têm a mesma dignidade”. Este Papa preocupa-se em defender as prerrogativas comuns a todos, defendendo a unidade da Igreja na sua diversidade, ocupado que ele estava na salvação das almas. E o Papa Leão afirma-nos, na Exortação Apostólica Dixelit Te, que «o afeto pelo Senhor se une ao afeto pelos pobres», nos quais «Ele tem ainda algo a dizer-nos» (n. 5).
  2. A outra indica que é preciso perdoar a quem nos fizer dano. É com a lei do perdão que a Igreja se manifesta contrastante com as sociedades deste mundo. Enquanto que as sociedades têm leis, polícias e tribunais para manter a disciplina, a Igreja não tem poder sobre aquele que age mal e se situa voluntariamente fora do seu campo; mas àquele que volta, tem de oferecer uma palavra de perdão. Foi esta lógica do perdão que Jesus começou a instaurar na Palestina. Para aguentar esta lógica nova, os Apóstolos precisaram de pedir a Jesus que aumentasse a sua fé, a tal capacidade de aceitar, com a nossa vida, o mistério de Deus que Se revela em Jesus Cristo, traduzindo-o num modo de conduta coerente, através do perdão, do amor aos pequenos, na esperança.
  3. Por fim, fala-se da plenitude da fé que permite conseguir não causar dano e perdoar a quem nos prejudica. Parece aos biblistas que a resposta de Jesus aos Apóstolos é de um contexto diferente. Porém, é muito útil para a compreensão deste contexto. Em Jesus, a justiça de Deus contrasta com a disciplina dos tribunais do mundo, que não sabem distinguir, por vezes, o verdadeiro mal do verdadeiro bem. Prova disso é a condenação do próprio Jesus. A lição que podemos tirar desta “teologia fundamental de Jesus” é que a fé é mais poderosa, tem mais valor e consistência do que todas as realidades físicas (a árvore, a montanha, o rio). A fé chega até ao fundo de Deus e dos homens, a esse fundo de Jesus em que tudo se sustenta. Por isso, quem vive da fé não precisa de transportar montanhas nem amoreiras, quer dizer, não precisa de atos extraordinários para se perceber em Deus. No fundo, já trasladou tudo, na confiança em Deus, de que Ele dá sentido à vida nas suas dimensões mais humanas e no serviço a essa vida. Tudo se sustenta ali, num plano de amor e de futuro. Tudo está apoiado sobre a árvore da cruz de Cristo e nos conduz para a glória da sua ressurreição.

Portanto, a vida da comunidade dos cristãos, que há de ser vivida segundo o espírito de Jesus: evitar o escândalo, perdoar as injúrias, viver da fé, precisamente o contrário do espírito do mundo em que reina o pecado e a divisão. No meio deste mundo pagão, diferente e novo, de Alexandria no Egito, o autor do Livro da Sabedoria, apoiado na fé dos seus antepassados, os requisitos para se encontrar com o Senhor são a simplicidade e a confiança. E tudo o que é tortuoso afasta do seu Espírito Santo. Ele é a Sabedoria de Deus que perscruta os corações e dá a cada um segundo a sua docilidade.