L 1 Rm 12, 5-16a; Sl 130 (131), 1. 2ab e 3; Ev Lc 14, 15-24, na memória do bispo S. Carlos Borromeu, dentro da Semana de Oração pelos Seminários. O que está em itálico pertence às admonições do dia.
Na reflexão sobre o Jubileu das Equipas Sinodais, em Roma (outubro 2025), o Professor Padre Miguel de Salis Amaral, da Universidade de Santa Croce, «focou-se na dimensão crucial da “conversão das relações”. Não se trata de um mero apelo sentimental a “gostar uns dos outros”, mas de radicar as nossas interações na estrutura relacional que o próprio Deus tece na Igreja através dos sacramentos. O Batismo, explicou, funda uma fraternidade essencial entre todos, base da corresponsabilidade na missão comum. O Sacramento da Ordem, por sua vez, não estabelece uma hierarquia de poder, mas um serviço específico orientado ao crescimento de todo o Povo de Deus, numa lógica de “orientação recíproca” entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial. Neste contexto, é necessário compreender a Igreja não apenas como uma organização, mas como um tecido vivo de relações queridas por Deus, onde ninguém é autossuficiente. Este entendimento, por sua vez, oferece luz capaz de superar lógicas de domínio e de construir uma sociedade mais empática, bonita e fraterna».
Talvez seja esta uma forma de traduzir o que Paulo afirmou diante dos Romanos, de que «formamos em Cristo um só corpo e somos membros uns dos outros». O Apóstolo, querendo orientar a comunidade e todos dentro dela no exercício concreto da vida em Cristo, insiste que o ponto de partida é precisamente a unidade de todos em Cristo. Ser cristão não é apenas ter a “sua” fé; é antes, por essa mesma fé, ser membro de uma comunidade, de um corpo, que é o Corpo místico de Cristo, em que cada membro é dotado de qualidades diferentes para o serviço de todo o corpo. Mas a caridade entre todos é a lei suprema.
Dentro do espírito da Semana de Oração pelos Seminários, D. Vitorino Soares, presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios (CEVM), convida-nos a deixarmo-nos provocar pelo lema “Precisamos de ti”, refletindo que ao declararmos que a Igreja precisa de jovens que aceitem o desafio da resposta ao dom da vocação presbiteral, ao mesmo tempo estamos a dizer que Deus precisa de todos e todos precisamos de Cristo.
O passaporte fundamental para fazer a experiência do banquete do Reino que está prefigurado na parábola de Jesus é a boa vontade. Não basta ser convidado, mas é preciso sentir-se e fazer-se convidado. Ninguém é, nem deve sentir-se excluído de se aproximar da misericórdia de Deus que salva. Para este banquete todos são convidados, porque por todos Cristo morreu e para todos ressuscitou. Os primeiros convidados escusaram-se. É uma referência ao povo de Israel. Talvez que os outros, por sua origem menos preparados, venham a escutar o convite. Desses outros fazemos nós parte! A Eucaristia, que celebra precisamente a Aliança entre Deus e os homens em Cristo, tem a forma de um banquete e nela somos convidados para “a Ceia das núpcias do Cordeiro”. Não foi sem fundamentação séria que o presidente do episcopado argentino insistiu na inclusão de todos no banquete do Senhor, «um mandato destabilizador porque inverte as práticas sociais fundadas no reconhecimento mútuo, no amiguismo, no agradecimento e na correspondência. (Ao invés,) Jesus propõe-nos um ‘nós’ maior, com a gratuidade como critério fundamental, assim como o faz Deus, que oferece os seus dons de maneira gratuita».
O “precisamos de ti” escutado durante esta semana tem sabor a gratuidade de parte a parte. O que o Senhor tem para nos dar é imenso e o que cada um de nós Lhe pode dar é o que Ele precisa para o todo do seu Reino. A escusa de um só deixa uma lacuna no projeto insondável de Deus. Todos são precisos.
Na constituição dogmática Lumen gentium, no.º 30, lemos: «Pois eles próprios sabem que não foram instituídos por Cristo para se encarregarem por si sós de toda a missão salvadora da Igreja para com o mundo, mas que o seu cargo sublime consiste em pastorear de tal modo os fiéis e de tal modo reconhecer os seus serviços e carismas, que todos, cada um segundo o seu modo próprio, cooperem na obra comum. Pois é necessário que todos, «praticando a verdade na caridade, cresçamos de todas as maneiras para aquele que é a cabeça, Cristo; pelo influxo do qual o corpo inteiro, bem ajustado e coeso por toda a espécie de junturas que o alimentam, com a acção proporcionada a cada membro, realiza o seu crescimento em ordem à própria edificação na caridade».
E no n.º 32 da mesma constituição dogmática lemos que «A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante Povo de Deus, contribui para a união, já que os pastores e os demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do Senhor, prestem serviço uns aos outros e aos fiéis: e estes dêem alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores. Deste modo, todos testemunham, na variedade, a admirável unidade do Corpo místico de Cristo: a própria diversidade de graças, ministérios e actividades, consagra em unidade os filhos de Deus, porque «um só e o mesmo é o Espírito que opera todas estas coisas» (1 Cor. 12,11).
A teologia do sacerdócio ministerial, apoiada no princípio estruturante da formação ─ a saber: «O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo» (Lg 10,2) ─, está hoje segura em afirmar que «o essencial da relação entre pastores e os fiéis é de um tipo de solidariedade bidirecional. A fraternidade da relação entre os batizados, tal como a entende o Concílio, exige que uns apoiem os outros. Esta solidariedade, por ser ‘necessária’ impede conceber identidades separáveis. Portanto, são as relações de coo-pertença e de serviço mútuo que vêm a estruturar não só a formação, mas também a futura vivência do ministério presbiteral.(Para quem quiser aprofundar mais, pode ler JORGE COSTADOAT, Principio estructurante de la formación de los ministros ordenados, na Revista Seminarios, Número 236 – 2025.)
Ao promover todos os meios de renovação cristã como reformador da Igreja, S. Carlos Borromeu certamente não deixou ninguém de fora e, sobretudo, como se depreende na leitura do Ofício proposta para hoje, não deixou de exortar que o primeira comunhão que deve existir é entre as palavras e os comportamentos, entre o que se diz e o que se faz. No seu cuidado para com a formação sacerdotal, ele como que aplica o pensamento do Apóstolo a conjunto dos que vivem o ministério sacerdotal, dando recomendações para todos os tipos de carismas dentro dos que vivem no presbitério, na perspetiva da comunhão, para se ter força para fazer Cristo crescer em nós e nos outros.
