navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jb 19, 1. 23-27a; Sl 26, 1. 4. 7 e 8b e 9a. 13-14 L 2 2Cor 4, 14 – 5, 1 Ev Mt 11, 25-30, no XXXI Domingo do Tempo Comum (C), Comemoração dos Fiéis Defuntos e Início da Semana de Oração pelos Seminários

O Evangelho da primeira Missa da Comemoração dos Fiéis Defuntos começa por nos mostrar o louvor de Jesus ao Pai. Porque é que Jesus o faz neste momento? Fá-lo em resposta na transição entre aqueles que O rejeitam e os que O hão de acolher. Antes desta oração de louvor, censurou as cidades em que tinha realizado a maior parte das suas ações poderosas, cujos habitantes não se converteram à sua boa nova (em Corazim, Betsaida e Cafarnaum).

1) Quem são os que O rejeitaram? São os tais “sábios e inteligentes” que estão convencidos de que o conhecimento da Lei lhes dá o conhecimento de Deus, apresentando-se como detentores da verdade, representantes legítimos de Deus, capazes de interpretar a vontade e os planos divinos.

2) Quem são os que se predispõem a acolhê-l’O? São os humildes que aceitam o seu convite a carregar o seu “jugo suave”, a lei do amor, o mandamento deixado por Ele aos seus discípulos, o verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, a regra de vida baseada no amor filial e fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus, que nos dá descanso e tranquilidade.

Este louvor é validado pela relação primordial íntima, de conhecimento entre Jesus e o Pai, dentro da qual entrarão aqueles a quem Ele quiser revelá-lo. E quem são os convidados? Os cansados e oprimidos que andam à procura de descanso para as suas almas, os simples, os fatigados, os carentes desse amor cujo jugo é suave. Jugo que não julga, mas ama e santifica. Os humildes que têm consciência de que não sabem ou conhecem tudo, mas têm a certeza e confiam que Deus os veio redimir em Jesus, e que pela Palavra, os Sacramentos e as Boas Obras os guiam no caminho que leva à salvação.

A Job foi dada a graça de um desejo no meio das suas tribulações, o de escrever com letras permanentes uma verdade de fé inédita: que o seu Redentor está vivo e que, levantado da terra, lhe será permitido estar de pé diante d’Ele, a vê-l’O face a face. Job dá-nos testemunho de um dos mais belos atos de fé e de esperança na ressurreição dos mortos, mais de 4 mil anos antes de Cristo! Inspirados neste testemunho e como cantámos no refrão do Salmo, esperamos, todos, vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos.

Os fiéis defuntos são aqueles que não querendo ou não tendo conseguido saber tudo, preferiram confiar-se ou abandonar-se em Deus. Sim, em cada experiência de morte física, é capaz de acontecer este “abandono” filial nos braços d’Aquele a quem pertence toda e qualquer vida. Com a aproximação da morte física e com a vulnerabilidade própria de quem vê a sua vida chegar ao fim, baixam todas as resistências ao amor de Deus nosso salvador.

Muitos dos nossos fiéis defuntos já fazem parte da glória dos céus e fizeram parte, também da Solenidade de ontem (e por isso é que a Igreja a celebra juntamente com a comemoração de hoje). O Papa Francisco, numa das suas audiências (13/04/2016) disse «não há santo sem passado, nem pecador sem futuro» e acrescenta que para Jesus, «é suficiente responder ao convite com o coração humilde e sincero. A Igreja não é uma comunidade de pessoas perfeitas, mas de discípulos a caminho, que seguem o Senhor porque se reconhecem pecadores e necessitados do seu perdão. Por conseguinte, a vida cristã é escola de humildade que nos abre à graça. Este comportamento não é compreendido por quantos têm a presunção de se julgar «justos», de achar que são melhores que os outros. Soberba e orgulho não nos permitem reconhecer-nos necessitados de salvação, aliás, impedem-nos de ver o rosto misericordioso de Deus e de agir com misericórdia. Elas são um muro.»

Entre o céu onde estão os Santos e o Purgatório onde cremos estarem os nossos fiéis defuntos necessitados de purificação e esta onde peregrinamos não há “muros”, mas uma relação de comunhão, de participação e missão, a caminho da pátria celeste. A santidade não é só no céu, mas, num certo sentido, um prolongamento da Encarnação de Jesus Cristo que acontece a partir da existência terrena. O Papa Francisco deixou escrito, no n.º 7 da sua Exortação Apostólica ‘Alegrai-vos e exultai’ (2018) sobre o chamamento à santidade no mundo atual. O Papa diz: «gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da ‘classe média da santidade’».