navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Rm 8, 31b-39; Sl 108 (109), 21-22. 26-27. 30-31 Ev Lc 13, 31-35. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

O Evangelho de hoje coloca-nos diante do grande paradoxo que é a Jerusalém. Por um lado, está ligada ao destino de Jesus, por outro, é símbolo de todos aqueles que se opõem à voz da sua mensagem. A origem deste paradoxo ─ que o Senhor teima em atravessar com paciência ─ é o medo de Herodes pelo regresso do Batista e, agora, por Jesus, querendo a tranquilidade para si e para a população, estorvando-o a presença de um profeta com perturbações de caráter messiânico. E os fariseus parecem ajudar Jesus, mas, na realidade, querem imitar aquela falsa tranquilidade de Herodes. Para Jesus, Herodes é uma raposa que busca com astúcia o seu proveito e não se detém diante de preconceitos de caráter moral ou religioso quando o exige a sua política. Por isso, ameaça Jesus, esperando que Ele se cale.

Jesus responde na linha dos profetas do seu povo: não há rei que possa opor-se à sua tarefa; a sua missão de pregar o Reino vem de Deus e não se apoia nas licenças ou vantagens que Lhe oferece a força deste mundo; não pediu licença para anunciar a verdade nem modificará o seu rumo perante possíveis ameaças. Ali, em Jerusalém, onde está a possibilidade da ameaça por causa do anúncio do Reino, está o lugar da missão de Jesus e os seus destinatários. É ali, no centro do seu povo que Jesus deve dar a sua vida até ao fim. Adoremos este Senhor que lá onde devia pronunciar as palavras e os gestos do Reino, experimenta a dureza da rejeição. Mostra-nos que qualquer “nascimento” de uma “nova terra” tem de passar pelas “dores do parto”. Naquele confronto com as autoridades, Jesus pressente, na linha da autenticidade dos profetas, que a sua morte faz parte destas dores fecundas. E é Ele que decide comparecer diante deste confronto. Toda a sua existência está marcada pela “atração da cruz”, por um caminho de livre subida até ao calvário. E é aqui que está o maior paradoxo: o de uma atração livre. Uma intromissão de Herodes que, sem o saber, realiza ao mesmo tempo o desígnio da livre entrega de Jesus.

Jerusalém é, por isso, também, sinal de doação vocacional até ao fim e até ao limite. Que exige de cada um de nós uma entrega total, sem condições. É sinal daquela entrega que queremos fazer com um amor que, por vezes, é rejeitado. Cuidado com uma entrega em que os nossos destinatários aceitam sempre o que lhes transmitimos! Se lhes transmitimos a mensagem divina, é provável que tenhamos confrontos! Quando uma comunidade teima em rejeitar as disposições do Magistério autêntico da Igreja, na defesa das verdades do Evangelho de Jesus Cristo, na pessoa do seu pároco, arrisca-se a vaguear pelo abandono, mesmo diante de um zelo do pároco não reconhecido. Disse me muitos párocos que deixaram as suas paróquias, por vezes, amargamente, o mesmo que de Jesus “Bendito o que vem em nome do Senhor”, infelizmente já só depois de ter saído.

O grande desafio pastoral que é apontado a nós e às nossas comunidades da Igreja é descobrir Jesus como autêntico profeta e deixar que nos reúna na mensagem da sua vida.

Dois testemunhos:

1) Um meu pároco que já partiu par ao Pai, também meu formador no Seminário, testemunhava que só se deu conta de estar a viver a pleno a sua entrega como presbítero quando a vida começou a ser mais difícil diante das mudanças que era preciso operar pastoralmente. E referia-se aos anos após o tempo “da graça” inicial. Foi ali que percebeu que a sua entrega estava a ser mais conforme a configuração com Cristo.

2) Um outro testemunho, memorizei-o de um político que conhece padres que, segundo escutei, “dariam para bons políticos”. À primeira vista, agradou-me o elogio, tendo em conta a necessidade que temos de padres dinâmicos e envolvidos em parceria com os governantes da sociedade, em prol do bem comum. Porém, à luz da mensagem desta liturgia da Palavra, diante de padres que conseguem muitos apoios dos políticos (o que à primeira vista é bom), poderíamos perguntar-nos: e Deus conseguirá tudo de nós? Entregamo-nos totalmente, sem condições, sem reservas, mesmo quando nos envolvemos a fundo na relação com todos?

Que a experiência formativa do Seminário seja uma “mola” para que a presente e futura missão presbiteral não deixem abalar ou intimidar a força profética que o próprio Jesus lhe imprimiu com o seu testemunho, seguindo a linha dos profetas.