navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ef 2, 19-22; Sl 18 A, 2-3. 4-5 Ev Lc 6, 12-19, na Festa dos Apóstolos S. Simão e S. Judas

Nas sendas de Moisés e de Elias, também Jesus subia ao monte muitas vezes, de noite, para orar ao Pai. Os que estiveram junto a Ele no Monte da Transfiguração, foram, de certa forma, para Ele inspiração ao longo da sua vida pública.

Nas cenas do Evangelho desta Festa, Lucas condensa a totalidade do ministério de Jesus: a sua abertura a Deus refletida na oração, e transmitida a alguns apóstolos que seriam encarregados de difundir a sua novidade no meio dos homens, acompanhando-O na exposição da sua Palavra e dos gestos de cura.

Vejamos por partes: o monte é lugar de encontro com o divino e a noite é tempo de revelação, de intimidade e de abertura ao mistério. O conteúdo dessa oração traduz-se na manhã seguinte sob a forma de escolha dos apóstolos. A elevação a Deus e o envio aos homens constituem os dois momentos constitutivos da figura de Jesus: só porque Se encontrou com Deus na intimidade da sua pessoa, Jesus pode oferecer aos homens um dom de salvação e enviar alguns apóstolos ao mundo.

Os apóstolos que Jesus escolheu, e que Lucas sublinha que são distintos dos discípulos, são para encarregar de uma missão especial no seio da Igreja. Nas origens da Igreja, eram importante considerar aqueles discípulos que foram escolhidos por Jesus como o Ressuscitado, como testemunhas da Páscoa, diante do perigo de desvios introduzidos pelos novos cristãos que pretendiam ter visto Jesus e que ensinavam verdades diferentes. Os Doze constituem o princípio e o fundamento permanente da Igreja, que sobre a pedra angular que é Cristo, continua a enviar outros apóstolos (os bispos) e os discípulos, diante das multidões de hoje.

A primeira coisa que Jesus faz com aqueles que escolheu é descer da montanha, indo ao encontro da humanidade que os espera em baixo. Vejamos o quadro: Jesus está no centro, em volta d’Ele os doze, depois o grupo maior de discípulos (a Igreja), e finalmente o povo, aberto à Palavra e aos milagres. Nesta cena, reflete-se a estrutura da Igreja: tudo provém de Jesus, passa através dos seus enviados (apóstolos, ministros, etc.), chega à Igreja e vem a ser força de salvação para toda a humanidade.

E para que consigamos acolher esta Palavra e modo de fazer de Jesus como Ele a inspirou a Paulo, somos chamados a acolher o convite a não ser, já, estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, que tem Cristo como pedra angular. Como o Apóstolo dos gentios diz: «Em Cristo, toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo do Senhor; e em união com Ele, também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito Santo, morada de Deus.»

Em Roma, no Jubileu das equipas sinodais, o Papa Leão XIV pediu “que se passe de uma Igreja de hierarquias a uma família de irmãos”. Afirmou que “ser Igreja sinodal significa reconhecer que a verdade não se possui, mas que se busca juntos, deixando-nos guiar por um coração inquieto e enamorado pelo Amor de Deus”. Só assim é possível criar e acompanhar as comunidades, em que as relações não respondem à lógica do poder, mas do amor”, desde a “vida espiritual que nos faz descobrir que todos somos filos de Deus, irmãos entre nós, chamados a servirmos uns aos outros”. “A regra suprema na Igreja é o amor. Ninguém está chamado a dominar, todos estão chamados a servir. ninguém deve impor as próprias ideias”.

Prova disso é que os apóstolos que hoje celebramos, o que escreveu uma carta (Judas) não se transmite a si próprio; e o Simão nem sequer escreveu, mas agiu em conformidade com a Palavra que lhe foi transmitida. Quando Judas, na última Ceia, perguntou ao Mestre por que razão Se manifestava aos seus discípulos e não ao mundo, recebeu esta resposta: «Se alguém Me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará; viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23).