navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Rm 5, 12. 15b. 17-19. 20b-21; Sl 39 (40), 7-8a. 8b-9. 10 e 17; Ev Lc 12, 35-38

Depois de advertir os seus discípulos para o perigo das riquezas e exortar ao desprendimento e à confiança em Deus, convidando-os a colocar o coração no tesouro inesgotável dos céus, Jesus faz um convite à vigilância. E, ao refletir na liturgia de hoje no contexto das missões, contemplei a vigilância como se fosse irmã da esperança. Uma passiva e outra mais ativa, mas faces da mesma realidade. Fazem-me, até, lembrar Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42). A que se ocupa de beber da fonte que anima e a outra que utiliza essa força para servir. São irmãs, não alternativas, mas parte da mesma família cristã.

Do ponto de vista psicodinâmico, poderíamos dizer que precisamos de duas funções ─ uma mais interna e outra mais externa ─ para que a vigilância e a esperança sejam cúmplices, como “irmãs”, dentro do nosso mesmo ser e projeto de vida:

1) Por um lado, o desejo (“cingir os rins”), para que desejemos só o que agrada a Deus;

2) por outro lado, o olhar (“lâmpadas acesas”), para vermos a realidade como ela é e interagirmos de forma a que nela e a partir dela se manifestem os desígnios de Deus.

Por vezes, com o tema da vigilância cristã passa-se o mesmo que com outros temas da Sagrada Escritura: fingimo-la com muitas palavras em vez de nos cingirmos com a caridade silenciosa. Talvez porque não estamos a ver bem, não é sempre má vontade! Também poderíamos traduzir a vigilância por obediência aos valores e a esperança por agilidade prática da caridade.

Uma vigilância sem a esperança ativa pode cair no intimismo moral; a esperança sem a vigilância pode ficar passiva e sem horizonte de valor transcendental.

Vi nas redes sociais uma notícia a notificar que, em Londres, um homem estava pronto a lançar-se de uma ponte, perdido numa batalha que mais ninguém conseguia ver. Ele estava pronto para desistir da vida. Mas depois algo de extraordinário aconteceu: estranhos recusaram-se a deixá-lo ir. Sem hesitar, um grupo de transeuntes correu na sua direção. Agarraram-lhe os braços, a camisa, tudo o que conseguiram agarrar. Durante quase uma hora, abraçaram-no, falando suavemente, oferecendo esperança, recusando-se a deixar que a escuridão prevalecesse. Observadas as mãos dos que estavam a ajudar viam-se: a força, o cuidado, a determinação feroz de pessoas que não lhe deviam nada, mas lhe deram tudo o que tinham. Estranhos, unidos não pelo sangue ou pela amizade, mas pela humanidade partilhada. A ajuda chegou finalmente. Foi arrastado para um lugar seguro, porque no momento em que mais precisava, o mundo apareceu de braços abertos. Esta é a face da humanidade. Isto é o que a esperança realmente significa.

É em episódios como este que vemos a vigilância unida à esperança. Vemo-lo na humanidade partilhada lá onde as pessoas vivem a falta do sentido da vida. Contemplamo-lo lá onde há pessoas que se dão sem pedir nada em troca, a não ser o bem ou a salvação dos outros. Por vezes, em entregas até ao martírio, como vemos nos exemplos de vida que, de certa forma, constituem o chamado “5º Evangelho”. Não se é chamado à vigilância para não cairmos meramente no mal, mas também e sobretudo para estarmos atentos à realidade que nos pede ações concretas de cooperação na salvação.

A vigilância do povo celebrada na noite de Páscoa, aguardando a vinda do seu Senhor ressuscitado, tem aqui a sua correspondência: na capacidade de anunciar a vida eterna nos momentos em que a morte (sobretudo a eterna) espreita. Velar pela vida eterna implica a obediência à sua divina Fonte, como São Paulo tão bem nos soube explicar na primeira leitura. Os pecadores podem, pela obediência obter a salvação, porque Jesus, sem ser pecador, também obedeceu em nosso favor.