navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Rm 4, 20-25; Sl Lc 1, 69-70. 71-72. 73-75; Ev Lc 12, 13-21

A atitude deste “alguém” que, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo» contrasta com não poucas pessoas como a que ontem encontrei, que não antepõem a herança ao cuidado desinteressado dos seus idosos. E a prova é o facto de o fazerem muitas vezes sem descanso ou ajuda dos imitadores daquele “alguém” da cena de hoje. Não poucas vezes, a maioria (des)espera pela herança, antepondo-a ao cuidado físico, psicológico e espiritual dos idosos, enquanto estão vivos. A minoria que cuida, por vezes, só recebe contrariedades, sem o reconhecimento e entreajuda no que faz. Arriscando-se, até, a perder o que mais dignifica a sua vida: o descanso, a paz, a não-revolta, a serenidade, a saúde, etc. essenciais para poder continuar a entregar-se pelos outros.

Uma pessoa que se gasta no cuidado para com os outros, de forma desinteressada, e sem baixar os braços, apesar do desgaste físico e o desânimo que isso possa comportar, torna-se rico aos olhos de Deus. Ao invés, as pessoas que vivem a pensar nos bens dos seus entes queridos, sem se ter ocupado antes no seu cuidado, ignoraram o “bem d’alma” mais importante, que é o cuidado da pessoa em vida. Prova disto é, em alguns casos, quando os idosos deixam parte do seu património legado em testamento, destinado a assegurar a salvação eterna do doador, ou das pessoas por ele designadas, com a finalidade de beneficiar a alma após a morte. Por vezes, temem que quem não foi capaz de cuidar dos seus corpos em vida, muito menos serão capazes de rezar pelas suas almas após a morte.

Na verdade, faz bem à nossa alma fazer bem aos mais idosos e vulneráveis em vida. E isso também dará um bom descanso às almas de quem cuidamos após a sua partida. É que não se trata só de descansar após a morte, mas de partir descansados pela continuidade do legado que deixaram. Ainda têm tempo de ver que o maior património que deixaram depositado são talentos a render nas boas ações, mais valiosos que aqueles bens pelos quais, por vezes, os seus filhos se degladiam. Razão tinha Khalil Gibran ao dizer que “a morte deixa uma mágoa que ninguém pode curar, o amor deixa uma memória que ninguém pode roubar”. E Oriana Fallaci escreveu que “deve haver qualquer coisa de errado no cérebro daqueles que acham a guerra gloriosa ou emocionante; não há nada de glorioso, nem nem emocionante, é apenas uma tragédia suja pela qual não podemos mais que chorar”. Parafraseando-a, digo que também deverá haver alguma coisa de errado no coração dos filhos que só encontram conforto na herança económica ou material dos seus pais; só há a lamentar que se esqueçam de vivenciar fraternalmente e na prática os valores com que, de algum modo, foram educados.

Hoje rezo por todos os cuidadores informais, por todas as pessoas que prestam cuidados de forma regular e permanente a pessoas em situação de dependência, como familiares e amigos, para que sejam reconhecidos muito aquém do seu estatuto governamental. Que os direitos ao apoio psicológico, períodos de descanso e a possibilidade de conciliar os cuidados com o trabalho profissional possam também incluir, da parte dos seus familiares, aquele clima de fraternidade que é próprio de uma filiação dócil aos valores de Deus transmitidos pelos mais velhos, terapia para a indiferença e a avareza do quem não quer cuidar. Que os cuidadores que vivem mais desanimados e desgastados possam confiar na promessa de Deus que (como garante o Apóstolo) os justifica, e possam também contar a com a solicitude dos seus irmãos ou vizinhos mais próximos. Oremos, irmãos.