navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Rm 3, 21-30a; Sl 129 (130), 1-2. 3-4b. 4c-6 Ev Lc 11, 47-54. Os itálicos são das admonições do dia. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Os mais responsáveis pelo ensino da lei tinham-se deixado endurecer (com muita cabeça e pouco coração) e impediam até os outros de atingirem o conhecimento profundo e autêntico das Escrituras. Admoestando-os duramente, Jesus ensina que não se pode reduzir a Palavra de Deus a uma série de preceitos morais, por mais elevados que sejam, mas que devemos ver neles a revelação dos desígnios de Deus sobre os homens, revelação que nos ensina a entender a vida como Deus a entende e a vivê-la em resposta ao seu plano de amor por nós. A revelação de tais desígnios só Jesus a trouxe à humanidade de forma plena e pedagogicamente perfeita.

Ao edificar os túmulos dos profetas que os seus pais mataram, os doutores da lei estavam a ser “abortistas” do projeto de Deus, em vez de ser promotores da vida de Deus. Os preceitos poderiam até, como já se disse, ser elevados, mas a forma como os doutores da lei os impunham davam a entender que se substituíam a Deus. A perseguição a Jesus era a prova de que os doutores da lei lhes custava reconhecer a salvação que estava n’Ele, do modo como Deus manda!

A liturgia de hoje deixa-nos ver nas entrelinhas que Jesus gostava muito de duas realidades:

1) Os profetas. Segundo os grandes biblistas, como Albert Vanhoy, o sacerdócio de Cristo apoia-se no profetismo de Israel. Porque será? Talvez porque foi Deus que enviou os profetas. O sacerdócio de Cristo não é uma cópia dos sacerdotes do templo, muitos deles politizados. Ele é o Novo Moisés, sonhando um Novo Povo e está diante dos doutores da lei que não são cpaazes de O reconhecer na linha dos profetas. Compreende-se a ver pela descrição que Jesus faz deles. O sacerdócio do Novo Testamento a que somos chamados a configurar-nos é aquele bem descrito pela Carta aos Hebreus.

2) Jesus também gostava ou convivia bem com oxímoros. Como aquele que cantámos no Salmo 129: No Senhor está a misericórdia, no Senhor está a plenitude da redenção. O que aos doutores da lei parece ser contrário, está reunido em Jesus: Ele é misericordioso e, ao mesmo tempo, redenção plena. E os seus seguidores, os Apóstolos, etc. são, também capazes, como Ele, de não ter medo de paradoxos, mas de caminhar no mistério que se esconde neles. Outros oxímoros: a voz do silêncio (por onde o Espírito Santo se esconde), deixar-se atrair livremente (Santo Agostinho)

Do ponto de vista histórico, o problema dos doutores da lei e as palavras que Jesus lhes dirige refletem ao mesmo tempo a experiência da Igreja. Muitas vezes, nela, os letrados correm o risco de se tornar proprietários do saber de Deus, identificando-o com as próprias perspetivas e interesses. É um perigo semelhante que continua a ameaçar a nossa Igreja: a verdade de Jesus está condicionada pelos homens que a anunciam e comentam. Por isso, é importante que lutemos sempre contra as eventuais manipulações. Importa, antes de tudo, que eu próprio me torne transparente da pessoa e da mensagem de Jesus.

De outra forma, corre-se o risco de uma história bipolar feita destes dois momentos: a) Deus envia os seus profetas para ensinarem aos homens o caminho da salvação; b) o povo mata-os, boicotando os desígnios de Deus. A história de Jesus situa-se em contra-luz. Embora o seu destino de testemunha perseguida constitua o auge de toda aquela linha de perseguição à verdade que culmina na Páscoa, com os seus verdadeiros seguidores, a honestidade perdurará, mesmo que os seus Apóstolos tenham de sofrer à maneira d’Ele.

Em síntese, defender verdades parciais acerca da vida da fé, defendendo a própria posição com violência, leva o ser humano por um caminho que se distancia do projeto de Deus. O Evangelho é luz, pela sua verdade e exigência que comporta. E quase sempre o sofrimento dos que o tentam cumprir deve-se à auto-defesa dos que não querem ver e seguir por essa luz divina.

É possível que em alguns ambientes eclesiais o trecho da Carta aos Romanos hoje proclamado seja interpretado de forma parcial. Não é que tenha de ser lido à letra e fora do contexto. Porém, nenhum estudioso isoladamente o pode interpretar, sem o critério comunitário no hoje da salvação. No final Paulo conclui: quem tem motivos para se gloriar? Só Deus, que é para todos. No seu contexto, talvez Paulo quisesse alertar para o perigo das obras mortas sem fé, anunciando a importância da obra viva da fé. Na Igreja corre-se o risco de se fazer muita coisa que não tem que ver com a fé. Hoje continua a ser útil esta advertência. Pois as obras da lei sem fé também podem “matar” ou marginalizar.

APP Autoritarismo versus Acompanhamento
Na minha longa experiência de formador, entre ensaios e erros, fui-me dando conta que tendia a ser mais autoritário na medida em que não tinha tempo para acompanhar com mais proximidade, por causa dos muitos afazeres ou “títulos” que, por vezes, me distraíam da missaõ fundamental. De facto, o autoritarismo obriga-nos a “legalizar” e a “moralizar” por causa da distância que despersonaliza. O acompanhamento, ao invés, não moraliza nem precisa de se fundamentar mas leis, mas numa relação, um vínculo que ajuda a caminhar no crescimento para a maturidade através do testemunho.

APP “Artesãos de esperança
Para conseguirmos ser “missionários de esperança entre os povos” é nas pegadas de Cristo que somos chamados a caminhar anunciando “uma esperança viva” e não por entre os túmulos da esperança morta pelas opressões do inimigo.
Podemos se “artesãos da esperança”:
1) Partindo sempre do Jesus pascal;
2) Pela oração como primeira missão;
3) Acompanhando os outros no meio das suas vulnerabilidades.