navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Rm 1, 16-25; Sl 18 A (19), 2-3. 4-5 Ev Lc 11, 37-41

Jesus disse que “os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade. Pois o Pai procura os que assim o adoram” (Jo 4,23). É pena que, por vezes, os crentes só se deem conta desta verdade quando corpo já estiver a perder forças. Por vezes, cheios de voluntarismo, de emocionalismo e de afetividade desorientada (como Luciano Manicardi reflete a respeito de Elias em 1Rs 19,11-13; cf. Revista Brotéria, Outubro 2025, pp. 252-262) ─ prontos para fazer tudo e mais alguma coisa, mas, por vezes, com pouco espírito e com pouca verdade. De facto, a nossa vontade, a nossa emoção e a nossa afetividade não esgotam a vida segundo o Espírito de Deus!

A palavra de hoje ajuda-nos a aprofundar a dialética amor-ritualidade ou amor-etiqueta. O amor precisa de ritos, mas por vezes estes travam o amor ou mascaram o desamor. O episódio do Evangelho de hoje é suficientemente eloquente neste assunto. Assim o foi também o episódio do domingo passado, a respeito da cura dos 10 leprosos, em que só um, de fora da ortodoxia do tempo, é capaz de, relativizando as regras, interromper o caminho para se ir prostrar em agradecimento diante da fonte da cura.

O que significa dar de esmola o que está no interior, como Jesus pede?

1) Por um lado, poderemos ver aqui uma alusão ao sacramento da penitência, convite a darmos mais importância à purificação do coração do que dos pés ou das mãos. Pois a beleza e higiene corporal está muito bem para a autoestima e o convívio social, mas não podemos perder a beleza da vida eterna descuidado a higiene da alma.

2) Por outro lado, significa priorizar a caridade para com os outros, em relação à piedade intimista pessoal. Recordemos a lição divina dada no episódio do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25-37). É a caridade, que não acaba nunca (cf. 1Cor 13,8), servirá de critério de avaliação no juízo final! Ao dizer-nos “Dai antes de esmola o que está dentro e tudo para vós ficará limpo”, Jesus garante que o Pai pode servir-Se da nossa transformação interior para transformar as nossas relações e o mundo à nossa volta. Porque foi Ele que fez tudo e sabe melhor do que nós a correspondência entre estes dois lados da existência.

2) Em terceiro lugar, dar prioridade a tudo o que pode dar origem a novas relações com base no Evangelho pode ligar mais à vida eterna do que aquelas tradições humanas que só servem para esta vida e que, por vezes, só fragmentam ou separam. E, por vezes, fazem perder a esperança. Como diz Rainer Maria Rilke, «o futuro entra em nós, para transformar-se em nós muito antes de acontecer». Pode ser a descrição do que aconteceu naquele dia em casa do fariseu: Jesus entrou em sua casa e tomou lugar à mesa, para transformar a vida do fariseu. E o fariseu está preocupado com as coisas da sua cultura.

Hoje, curiosamente, celebra-se a nível cívico o Dia Mundial do Ovo, por causa das valências nutritivas que este alimento oferece. Para Santo Agostinho, a esperança é como um ovo. O ovo embora já seja uma realidade (algo que existe empiricamente), ele não é um fim em si mesmo: transporta dentro de si algo mais, que ainda não se vê, mas que se intui que exista (o pintainho), porque existe o ovo. Portanto, quando vemos um ovo, não vemos apenas o ovo em si, mas algo mais: a esperança que o ovo transporta dentro de si (o pintainho). Esta metáfora agostiniana elucida-nos sobre a importância da esperança: a capacidade de ver algo mais na realidade do que aquilo que a realidade nos permite ver “à primeira vista”. A esperança não é tanto o ver “coisas novas” (que nos mantêm em círculos viciosos), mas ver as coisas (também as “coisas velhas”) de um modo novo. Porque a nossa vida não se reduz a este mundo, somos «peregrinos da esperança» (Spes non confundit, 1) em direção à eternidade.

É pena que possa haver cristãos que sigam a lógica do fariseu. Teimam em viver a relação com Deus e os irmãos como se Jesus ainda não tivesse vindo à terra. É que a força que salva todo o crente é, como diz Paulo, a força do Evangelho, do qual ele não se envergonha. Não podemos, pois antepor a importância das etiquetas à relação com as pessoas.

Confesso que fiquei um pouco quebrado quando, como formador, ouvi um orientador de pastoral contar um episódio em que um formando, num encontro entre ele o pároco e uma colaboradora pastoral, o formando foi correndo para a imposição de um parecer que por mais técnico e eficiente que fosse, não levava em conta o conhecimento da pessoa colaboradora, a sua experiência e a sua formação. Precisamos de formar e, antes de mais, nos deixar formar a partir da alta consideração das pessoas, antes que as leis que nos “governam”. Assim foi chamado naquele jantar aquele fariseu, sem se dar conta por isso. Mas o Mestre não deixou de o ter em alta consideração, porquanto lhe deixou aquela lição.