L 1 2Rs 5, 14-17; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4 L 2 2Tm 2, 8-13 Ev Lc 17, 11-19, no XXVIII Domingo do Tempo Comum (C); reflexão inspirada em parte em Ermes Ronchi e na reflexão homilética para este domingo no Guião Missionário 2025-2026. Dia Mundial das Missões
É maravilhoso constatarmos que, apesar de a lepra ser uma daquelas doenças tropicais negligenciadas, a medicina fez enormes avanços na sua cura. Saber que é possível salvar um leproso com cuidados médicos e higiénicos atempados alegra-nos. Mas há uma outra “lepra” que contagia os corações com a indiferença, a intolerância, a ingratidão, sendo mais difícil a sua cura, mas também tem remédio: viver de coração aberto.
Coração aberto a quê ou a quem? A Jesus, fonte de salvação, ao novo, à diferença, à pluralidade, aos “samaritanos” (estrangeiros) de hoje! Essas pessoas inesperadas cujos gestos autênticos de fé e caridade interpelam a rotina e o vazio de tantos gestos religiosos.
E é no agradecer que notamos uma viragem. Quem sabe agradecer, e não apenas retribuir, multiplica a alegria. Mas até a gratidão é uma palavra que já parece gasta. O que fizemos dela? Vivemos quase sempre de favores dados e recebidos. Também a Eucaristia ─ momento que significa este constante voltar atrás para Jesus, para Lhe agradecermos no nossos dia-a-dia ─ sofre, por vezes, de utilitarismo… O que fizemos da verdadeira ação de graças que toda ela é? Como nos unimos à ação de graças universal que Cristo toma em suas mãos e oferece ao Pai? Como nos oferecemos nós, se procuramos mais receber?
Quem vive agradecido tem um olhar novo sobre a vida. Sabe de onde lhe vêm os dons e as surpresas. É capaz de voltar para trás para louvar a Deus, tendo um rosto e os olhos iluminados, porque é capaz de ver a luz onde os outros veem a escuridão. Libertou-se do “caruncho” da ingratidão.
Aqueles 10 leprosos acreditaram na Palavra de Jesus antes mesmo de verificarem os seus efeitos, porque Lhe obedeceram. Então, porque é que aqueles 9 judeus foram aos sacerdotes e aquele único samaritano voltou para trás, para dar graças a Jesus? É que os judeus estavam mais presos à lei, sabendo que só os sacerdotes é que poderiam fazer o diagnóstico da cura que lhes daria livre-conduto para voltar a andar dentro da comunidade. Então, aqueles judeus foram retrocedistas*. Só o samaritano for capaz de seguir em frente, no sentido da graça que é a fé em Jesus.
O samaritano ─ mais uma vez proposto por Jesus como modelo da fé que salva ─ tem a coragem de reconhecer a fonte inédita da cura que é Jesus. Mas não só da cura: ele viu em Jesus a salvação, que é mais do que uma cura física. Jesus usa a cura física para lhes mostrar um caminho mais além da vida física. Por isso, diz-lhe “Kum”, que quer dizer “Levanta-te” (como Ele disse à Talitha, a pequena a quem devolveu a vida). No hebraico, esta palavra é a mesma para designar “ressurreição”! O samaritano, de fora do Povo de Deus, de fora do recinto da ortodoxia, ganha a salvação, porque teve a coragem de reconhecer em Jesus a própria salvação. A tua fé te salvou! ─ diz-lhe Jesus. Cá está, como vimos no último domingo: a fé não é um conjunto de ritos a cumprir em quantidade, mas uma adesão dócil à pessoa de Jesus!
Também para nós, o caminho é lugar de cura e fermento de esperança. A nossa vida, por vezes doente e errante, tem cura não porque alcançamos uma meta, mas porque temos a coragem de partir ou de nos pormos a caminho.E isto pode começar por uma simples súplica. E, obedecendo às palavras de Jesus vamos dando passos pequenos que nos ajudam a ver a cura em todas as dimensões do nosso ser. Mas não basta obedecer, pois os judeus também obedeceram. Como também não basta a cura física! É preciso viver a gratidão diante do Senhor de todas as curas e da salvação. Mas para isso, por vezes, é preciso escolher uma direção inédita, sempre de volta para Jesus. É preciso ver para além das palavras de Jesus aquilo que Ele mesmo quer que vejamos. Ele não nos “faz a papinha toda”, mas provoca-nos, deixando-nos espaço para uma de decisão de vida livre por Ele.
É que o segredo não está na cura, mas no médico. Como o samaritano, somos convidados a compreender que a salvação não deriva de normas e leis cumpridas à letra, mas na relação pessoal com Jesus de Nazaré. O samaritano é salvo porque volta à raiz, à fonte. Não procura só dons, mas o próprio Doador. Para sairmos bem deste Evangelho, precisamos também nós de voltar à mãe de todas as palavras: graça! Sim, tudo é graça! Tudo em Deus é graça, não se compra!
E para sermos “missionários de esperança entre os povos”, como nos sugeriu em janeiro, ainda, saudoso o Papa Francisco na mensagem para o Dia Mundial das Missões (o próximo domingo, dia 19 de outubro), precisamos de colocar os nossos pés nas pegadas de Cristo. Porque é Ele, no meios dos desafios que vivemos neste mundo, a razão da nossa esperança. Porque não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no coração de Cristo. E todos juntos nesta seguimento de Jesus compassivo, tornar-nos-emos numa Igreja missionária. E esta é a essência da Igreja: ser missionária na fidelidade a Jesus e na compaixão para com os nossos contemporâneos. Tenho cá para comigo com muita certeza que, à maneira da correspondência entre o nosso dinheiro e a sua correspondência em ouro nos Bancos, assim é a relação entre as nossas boas obras de caridade com os ritos e orações que fazemos: estas, para serem coerentes, terão de ter o seu correspondente no “ouro” das boas obras em favor dos irmãos mais fragilizados.
O papa convidou-nos, também, a ser “artesãos” da esperança. Como? Veja-se na seguinte “APP” que podemos ir pondo em prática inspirados pela liturgia deste domingo.
APP “artesãos da esperança”
1) Partindo da experiência pascal (feita no Tríduo pascal e em cada Páscoa semanal, na Eucaristia ao domingo),
2) Exercendo a missão da oração como primeira ação missionária,
3) E desenvolvendo-a através do acompanhamento da vida de cada irmão na comunidade, para que cada pessoa possa viver uma vida digna e chegar à maturidade da fé.
4) Por fim, sugere-nos Maria, Aquela a quem nos convida a entregar o desejo de que a luz da esperança chegue a cada pessoa.
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* O que seria um “retrocedista”? Alguém que a nível social ou religioso quer voltar ao modo como se vivia ou fazia antigamente, não por ser objetivamente melhor social ou comunitariamente (à luz da reflexão e experiência), mas por se sentir psicologicamente mais seguro assim.
