navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jn 4, 1-11; Sl 85 (86), 3-4. 5-6. 9-10 Ev Lc 11, 1-4; o itálico pertence às admonições em Liturgia.pt

Os simples que só sabem rezar o Pai-nosso também estão na relação que permite estar perto e entrar no Reino de Deus. Dito de forma mais simples: os pobres que só rezam o Pai-nosso também estão a meio caminho andado para entrar no Céu. Parece uma afirmação de “La Palice” teológica, mas é importante defender o óbvio no meio da tendência de pensar que só quem dedica muitas horas de oração e meditação é que tem garantida essa ascese para o divino (quem reza mais são as pessoas que vivem uma especial consagração, para serem missionários do amor do Pai, fazendo discípulos de Jesus Cristo). Quem reza o Pai nosso sem se escandalizar já alcançou o mais importante na vida segundo o Espírito Santo: está catequizado e vive segundo a fé no Deus de Jesus Cristo. Com razão, os Antigos não permitiam que esta oração chegasse aos ouvidos dos pagãos antes de eles terem sido catequizados; seria certamente escandaloso para eles tratar a Deus como Pai! Mas ela contém a grande revelação: Deus é nosso Pai e tem-nos a nós como seus filhos.

Por vezes confunde-se ascese com mística e não são a mesma coisa. Enquanto que a ascese se carateriza mais com o esforço humano de alguns para alcançar Deus, a mística é puro dom gratuito de Deus acessível a todos. E pôr-se a jeito dessa revelação divina ao olhar de cada coração é algo que pode acontecer em qualquer lugar ou situação.

A verdadeira experiência mística faz-nos abeirar de um Deus que se descobre aproximado, mas ao mesmo tempo não manipulável por qualquer forma situacional de lidar com Deus. Este Deus que, sem Jonas compreender, perdoou aos ninivitas. E a verdadeira ascese é útil para que a relação com Deus possibilite a que nos irritamos cada vez menos no confronto com os nossos semelhantes. É que nos podemos irritar com muita facilidade: com o trânsito, com a lentidão dos outros, com as pequenas injustiças que nos tocam, com as coisas que não acontecem ao nosso gosto.

Precisamos de alimentar a serenidade no meio de situações em que nos sentimos inseguros. Para isso, precisamos de reorientar a nossa atenção e de avaliar os nossos sentimentos, compreendo-nos, também, no que sentimos e no que deixamos de sentir. É precisa a “santa indiferença” (Santo Inácio de Loyola*), não em relação aos outros, mas em relação ao que nos irrita, dando lugar à confiança e coragem de deixar que Deus conduza o que nós não compreendemos. Deus pode servir-se daquilo que nos outros é suscetível de nos irritar para “brincar” ou “jogar” connosco. Por outro lado, Deus, ao criar cada ser humano, não usou uma fotocopiadora, mas é o “oleiro” que está sempre a criar originais que o serão em toda a existência.

Assim, “o quotidiano não é um obstáculo, mas um lugar por excelência onde encontrar Deus“. A espiritualidade ou vida no Espírito Santo, permite-nos, no quotidiano e não só em momentos rituais, encontrar traços de Deus. Um dos oradores da 2ª Semana de Espiritualidade que irá decorrer em Málaga, Espanha, de 14 a 17 de outubro, garante que “se fosse necessário abandonar a vida quotidiana para se relacional com Ele, Deus estaria além do nosso alcance. A fé ensina-nos que o Filho de Deus tornou-se um de nós, assumindo a nossa humanidade. Nada em nós é estranho a Ele: as tarefas domésticas, o trabalho diário, o trabalho pastoral, a oração simples, ver os filhos crescerem ou cuidar dos mais velhos, o tempo livre ─ tudo é uma ocasião em que Deus vem ao nosso encontro”. Por vezes, dentro da Igreja, parecemo-nos com as pessoas de fora da Igreja que buscam na espiritualidade aquilo que desumaniza, que nos separa dos outros, pensando num Deus abstrato e não próximo. A “sede de espiritualidade” não pode significar sede de fuga no encontro com os outros e do confronto com as suas diferenças.

C. S. Lewis, na 15ª carta do tio demónio ao seu sobrinho aprendiz, sugere-lhe a seguinte estratégia para destruir a humanidade: nunca deixe o ser humano aqui e agora, no presente. Porquê, tio? Este responde-lhe: porque só se ama hoje, só se perdoa hoje, só se é feliz hoje, só se abraça hoje, só se consola hoje, só se faz tudo hoje, só se realiza hoje. Portanto, eu quero que tu faças tudo para que a humanidade fique presa no passado ou no futuro. No passado, há mágoas, ressentimentos e acusações, mas também tem uma coisa boa que não quero que a humanidade acesse: a gratidão. É melhor deixares a humanidade presa no futuro: ali não há absolutamente nada, é um grande vazio de ansiedade. E vivemos., por vezes, assim: desejamos, mas não queremos estar aqui e agora, para concretizar.

É assim: por vezes, irritamo-nos, também, porque não estamos presentes no presente que Deus nos faz viver, com as pessoas concretas com que somos chamados a partilhar o tempo e diante dos desafios que nos fazem crescer. Na oração do Pai-nosso está tudo o que possamos pedir para viver o presente ao encontro da serenidade diante de todas as pessoas e coisas, “dançando” entre a ascese e a mística: deixando que Deus Se revele como Ele quer e esforçando-nos, pelo menos, por não desperdiçar o contacto quotidiano com essa presença divina no quotidiano.

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* É um desapego interior que não se confunde com insensibilidade, mas sim com uma liberdade de espírito para não se apegar a desejos, apegos e desejos imediatos, permitindo que Deus seja o centro da vida e a única coisa que realmente importa.