navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Zc 8, 20-23; Sl 86 (87), 1-3. 4-5. 6-7 Ev Lc 9, 51-56, na memória de São Jerónimo, presbítero e doutor da Igreja

O que mais admiro em São Jerónimo é que ele mesmo é uma síntese perfeita entre o conhecimento das Escrituras e a prática da Palavra de Deus. Na oração Coleta, rezámos: Senhor nosso Deus, que destes ao presbítero São Jerónimo o dom de saborear a Sagrada Escritura e de a viver intensamente.

Como se a tradução da mesma fosse por este santo feita não só com palavras ─ atividade em que ele foi exímio para o seu tempo ─ mas também com ações. É o que lemos no Ofício: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”, não é só uma questão mental, porque, citando o Apóstolo Paulo, ele diz que “Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, aquele que não conhece as Escrituras não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria”. Portanto, só podemos conhecer o poder e a sabedoria de Deus em Cristo se praticarmos a sua Palavra. É nas boas ações, precedidas por uma escuta dócil da Palavra, que podemos contemplar o poder da sabedoria divina. Conhecer as Escrituras e, ao mesmo tempo, conhecermos o poder de Deus implica a tal unidade de vida entre a escuta da Palavra e a prática da vontade Deus nela expressa.

Esta atitude de Jerónimo implica uma capacidade grande de contemplação da ação de Deus. Um filho cresce ao contemplar e imitar as ações de um pai. Assim é com o Pai do céu. Porém, a humildade diante da Escritura também é precisa: ele próprio diz que não quer explicar as Escrituras de modo completo.

É o Senhor Jesus que é o compêndio completo de todas as Escrituras, de modo que é na relação com Cristo ─ Palavra e Ação ─ que nos vamos adentrando nesta aventura. Perto da sua entrega definitiva, a caminho de Jerusalém, enviou mensageiros à sua frente ─ com a Palavra ─ indo a seguir a eles ─ com a ação de Se entregar. Na pedagogia de Jesus ─ enviar à frente quem O proclame e ir atrás para Se entregar ─ há muita benevolência: dá lugar a que os que ouvem a Palavra possam decidir oferecer-Lhe hospedagem, compreendendo que não estejam preparados e seguindo adiante para outros corações mais dóceis.

Quando, como S. Jerónimo, perscrutamos a Palavra como quem a quer dar à luz na prática, pomo-nos a jeito de que, como refere a profecia de Zacarias, “povos e habitantes de grandes cidades” (parafraseando) queiram ir na nossa companhia, porque ouvirão dizer que Deus está connosco. E a presença divina que nos habita é missão, não é adorno ou amuleto. É Deus quem se deixa encontrar em nós, como música que não se sabe bem de onde vem, mas que dá nova densidade ao silêncio. E então tudo ganha novo significado.

Peçamos ao Senhor que faça de nós sacrários vivos da sua presença.