navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Dn 7, 9-10. 13-14; Sl 137, 1-2a. 2b-3. 4-5; Ev Jo 1, 47-51, Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Para o evangelista João a história da vocação dos discípulos transforma-se em mais um momento de testemunho sobre Jesus. Os vários títulos que são evocados nas circunstâncias do chamamento ─ Mestre, Filho de Deus, Rei de Israel ─ serão dimensões de Jesus que irão descobrir ao longo do seguimento.

Os títulos de Jesus é como se fossem “escadas” como a “escada de Jacob”, para um conhecimento evolutivo da identidade humano-divina de Jesus. A alusão de Jesus aos “Anjos de Deus subindo e descendo” tem uma certa relação à escaca de Jacob, também chamado “Israel”, como lemos em Gn 28,12: «Teve um sonho e viu uma escada assente na terra, cuja extremidade tocava o céu, e por ela subiam e desciam mensageiros de Deus». Aqui Jesus quer demonstrar-nos que há uma correspondência entre a sua identidade terrena e celeste. Jesus aparece, pois, como mediador entre o céu e a terra. Jesus utiliza a seu respeito o título humilde de “Filho do homem” conforme ele é tido na profecia de Daniel. Jesus quer ser sem reservas e enganos uma verdadeira escada para o Céu.

Mas no caso de Natanael (Bartolomeu), a respeito de Jesus, pesava mais a sua origem incógnita do que estes títulos. Estranhava, por isso, a descrição que Filipe lhe fazia d’Ele: “«Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: «Encontrámos aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José, de Nazaré». Disse-lhe Natanael: «De Nazaré pode vir algo de bom?». Disse-lhe Filipe: «Vem e vê!»” (vv. 45-46). Poderia lá vir de Nazaré o Mestre de que lhe falavam? Andava confuso e parecia-lhe incrível.

Mas mais do que os títulos, é determinante o encontro real e não fictício com o Mestre. A definição que Jesus dá de Natanael é utilizada pelo evangelista para, intencionalmente, fazer comparação entre os judeus, inimigos de Jesus, fechados à fé que Ele exigia na sua pessoa, e o israelita fiel e sincero, sem preconceitos, que O aceitava sem reservas. Desta história do chamamento de Natanael ou Bartolomeu aprendemos que quando nos encontramos com Jesus, tudo o que é ficção, fabricada pelas nossas fantasias, começa a desvanecer-se e o conhecimento que temos d’Ele e do seu projeto começa a ganhar traços cada vez mais claros.

A missão dos Santos Arcanjos, que «descem e sobem sobre Ele» é a de manifestarem que Jesus é o lugar da presença de Deus, onde Deus se tornou presente. As funções dos Arcanjos, são, pois manifestações do poder de Deus na vida dos homens: Miguel (“Quem como Deus?”) como o protetor nos combates da vida, na travessia para o Reino; Gabriel (“Deus é a minha força”) é o padroeiro das telecomunicações, o enviado das grandes embaixadas divinas, como a Encarnação; Rafael (“Medicina de Deus”) é conselheiro, companheiro de viagem, defensor e médico. Como sublinha São Gregório Magno, os Anjos que transmitem mensagens de maior transcendência chamam-se Arcanjos. Como aconteceu na Anunciação com Maria e Gabriel. São-lhes atribuídas por Deus funções particulares e concretas que ligam sempre com o nome de Deus.

O Papa Bento XVI na resposta à pergunta “O que é um Anjo?” diz que na Sagrada Escritura sobressaem dois aspetos: Por um lado, o Anjo é uma criatura que está diante de Deus, orientada com o seu ser inteiro para Deus. Os nomes dos três Arcanjos terminam com a particula “El”, que significa “Deus”. Deus é inscrito nos respetivos nomes e no seu ser, de modo que a sua verdadeira natureza é a existência tendo em vista Deus e para Deus. É assim que também se explica o segundo aspeto que carateriza os Anjos: eles são mensageiros de Deus. Portanto, levam Deus aos homens, abrem o céu e assim abrem a terra. Precisamente porque estão junto de Deus, podem também estar muito próximos aos homens. Deus é, de facto, mais íntimo a cada um de nós mais do que o somos nós mesmos. Os Anjos podem ajudar os homens a conhecer o que constitui o seu verdadeiro ser, acerca daquilo que tantas vezes está escondido ou sepultado. Os Anjos chamam-nos a reentrar em nós mesmos, tocando o mistério de Deus no íntimo de nós mesmos. Neste sentido ─ diz o Papa Bento XVI ─ também nós, seres humanos, deveríamos sempre de novo tornarmo-nos anjos uns dos outros, anjos que nos tiram dos caminhos errados e nos orientam sempre de novo para Deus.

Então, invoquemos no dia-a-dia São Miguel com a confiança que há coisas que só Deus pode fazer; invoquemos Gabriel para que saibamos acolher a sua fortaleza nas suas manifestações humildes; invoquemos Rafael quando a doença nos toca para que dissipe as trevas da nossa cegueira.