L 1 Esd 6, 7-8. 12b. 14-20; Sl 121 (122), 1-2. 3-4a. 4b-5 Ev Lc 8, 19-21, na memória do presbítero São Pio de Pietrelcina
A leitura do livro de Esdras fala-nos dos repatriados que celebraram a Páscoa após a reconstrução do templo de Deus em Jerusalém. O Evangelho fala-nos da repatriação entre dois tipos de pertença familiar, que podemos identificar com a passagem entre dois tipos de pertença: da família de sangue à família de água; da identidade humana/civil à identidade espiritual/batismal/cristã, de um mero seguimento familiar de tipo político-social a uma pertença baseada numa existência de discípulos-missionários.
Não estamos a ser chamados a deixar de ter uma pertença para passar exclusivamente a ter outra, mas a deixar que com a prática da Palavra de Deus a nossa presença no mundo alavanque processos de ressurreição, ou seja, nos leve a abrir as portas e aprofundar o caminho pelo qual o Senhor nos oferece a vida plena de imortalidade.
A presença de Maria ─ a respeito de quem S. Leão Magno diz que concebeu o Filho no seu espírito antes de O conceber em seu ventre e que é a Palavra de Deus que está sempre na origem da relação entre o homem e Deus ─ é na relação a seu Filho Jesus uma presença provocadora de novas moções em favor do crescimento ou renascimento espiritual dos seus discípulos. Por outras palavras, a presença de Maria é sempre provocadora do nascimento de novos discípulos de Jesus. O silêncio de palavras em Maria é proporcional à grande eficácia da sua caridade. Estou a imaginar Maria, com a sua sensibilidade especial ao Espírito Santo ─ que não terminou na conceção do Menino Deus, mas que se terá prolongado em toda a sua experiência de acompanhamento do seu Filho ─ a intuir o que naquela cena se iria passar e a pensar para consigo mesma: vou levar estes nossos familiares para que possam ouvir o que Jesus tem para dizer; também eles precisam de formação, porque, por vezes, a familiaridade humana não ajuda a que aconteça a tal repatriação para aqueloutra família divina.
Na liturgia de hoje temos dois passos de um mesmo processo no caminho do Povo de Deus até à terra prometida: no passo do Antigo Testamento, contemplamos o Povo saído do cativeiro apoiado e ocupado na reconstrução do Templo de Jerusalém; no passo do Novo Testamento, Jesus convida-nos na edificação do Povo da nova aliança, lançando pontes sobre a outra margem, a do Reino de Deus.
O próprio Padre Pio viveu estes dois passos numa síntese vocacional pessoal e empenho pastoral que são transparência do Evangelho: por um lado, cuidando dos feridos da grande guerra, fundando a casa “Alívio do sofrimento”, um hospital para aliviar doentes pobres e militares; por outro, com o seu grande espírito de oração, humildade e união profunda à Paixão de Cristo, viveu ocupado na direção espiritual dos fiéis e na reconciliação dos penitentes.
Portanto, a liturgia de hoje sugere-nos viver um dos rasgos mais importantes da essência do sermos cristãos: viver a radicalidade evangélica em factos e não só em ideais abstratos. Peçamos ao Senhor esta graça. Neste Dia Internacional das Línguas de Sinais ou Dia Mundial das Línguas Gestuais, peçamos ao Senhor para que ninguém fique excluído da descoberta da mensagem cristã da salvação através da contemplação da mesma na nossa forma de viver e de agir, pois há pessoas que só descobrirão o Evangelho se o virem nos nossos gestos ou obras.
APP Passos para uma síntese vocacional e eficiente empenho pastoral
Na sequência desta liturgia da Palavra e, concretamente, da integração e evolução contidas na leitura sinóptica dos dois textos de hoje, ao ler o artigo “Principio estructurante de la formación de los ministros ordenados”, de JORGE COSTADOAT, Rev. Seminarios (n. 236/2025, pp. 97-115), dei-me conta de que a inquietude que levou o autor a escrever este artigo ─ a impressão de que a receção criativa do Vaticano II se tratou em boa medida porque nos documentos do Concílio não se formulou com clareza a reforma do principal dos seus agentes, a saber, o clero ─ tem de ver, mesmo, com falta de passos coordenados e relacionados. De facto, o caminhar da Igreja pode ser compreendido a partir do caminhar de uma pessoa, que caminha cocha se as duas pernas não forem bem coordenadas nos passos a dar pela história, pela integração de moções e de agentes, para que os mesmos passos sejam dados. Lê-se, também, no abstract deste artigo que só quem mediou a sua personalidade com as pessoas da sua época, estará em condições de evangelizar com a criatividade que o Concílio pôde esperar. Ainda por cima, pode perguntar-se: os que não viveram nos anos em que aconteceu o Concílio podem dizer que “são” do Concílio Vaticano II? Como os que nasceram posteriormente ou eram pequeninos na época em que se deu o 25 de abril, podem dizer que são do 25 de abril? Segundo um afamado sociólogo, só quem viveu aquelas épocas é que se pode dizer que é ou terá sido deste ou daquele acontecimento. Isto traz-nos um outro problema: e se não houver interação ou diálogo inter-geracional? Como se podem dar estes passos fundamentais numa espécie de jogo em estafeta?
