L 1 1Tm 4, 12-16; Sl 110 (111), 7. 8. 9-10 Ev Lc 7, 36-50
Enquanto o fariseu Simão olha para a mulher pecadora de forma estática, com indiferença e sem deferência, Jesus olha-a na sua forma dinâmica de ser e de caminhar para Ele e a partir d’Ele. O Mestre vê o antes (a graça primeira), o durante (da vida errante do ser humano) e a possibilidade do depois.
Simão vive de aparências, da sua realidade não se sabe nada. Parece não ter história de amor recuperado. Parece que só tem um nome solitário. Soube julgar bem diante da parábola de Jesus, mas até lá não sabia discernir bem sobre as pessoas, precipitando-se em julgamentos injustos acerca da sua verdadeira e inteira realidade. Simão nem sequer soube tratar Jesus segundo a etiqueta trivial dos judeus. Para ele só há profetismo de denúncia sem cura; mas Jesus é profeta que anuncia uma vida nova.
Já aquela mulher desdobrou-se em gestos de humildade e reverência, que revelam Quem Ele é para todos. Aquela mulher, de quem nem sequer se menciona o nome porque representa muitos, excedeu-se em cuidados para com o Mestre, galgando “montes”, à maneira do Cântico dos Cânticos, com que se demonstra a coragem do amor que se sabe imerecido, mas atrevido ou destemido. Outra sinopse que aqui podemos encontrar é com Oseias: aquele Deus contemplado como marido que ama incondicionalmente a sua esposa infiel (Israel), exemplificado como amor esponsal que perdoa, cura, restaura mesmo após traição.
Vejamos os verbos com que se tece o Evangelho de hoje a respeito daquela mulher; e o que se diz do perfume, pode referir-se da sua piedade: “trouxe um vaso”, “pôs-se atrás”, “chorando muito”, “banhava-Lhe os pés”, “enxugava-lhos”, “beijava-os”, “ungia-os”. São verbos que não estavam presentes na etiqueta dos fariseus. E são os verbos com que se vive dinamicamente a humildade, entre o drama profundo de cada vida humana e o caminhar espiritual sobre as águas. A aproximação desta mulher a Jesus exprime-se como se ela própria fosse um vaso de perfume chamado “humildade”. Esta mulher é uma verdadeira discípula na sua aproximação a Cristo e o Mestre fá-la uma missionária no reconhecimento do seu testemunho em relação ao fariseu!
Conta-se que o Papa Gregório XIII, tendo ouvido falar das supostas visões e dons de uma monja em Roma, enviou o já idoso São Filipe Néri para investigar se nela haveria verdadeira santidade. Ao chegar, o santo, conhecido por sua humildade e sabedoria, abordou a monja de maneira simples, mas inusitada. Sentou-se, retirou as sandálias sujas da caminhada e, com a perspicácia que lhe era peculiar, pediu-lhe que lavasse seus pés. A monja, altiva e orgulhosa, recusou-se dizendo que não estava acostumada a realizar serviços menores. São Filipe voltou então ao Papa e deu seu veredito: a monja não era santa, pois faltava-lhe a virtude que é o fundamento da santidade ─ a humildade. Curiosamente, foi com a Bula “Deus é abundante em misericórdia” que aquele Sumo Pontífice deu estrutura àquele Oratório. (Conta-se, também, a história de que alguém acusou aquele santo ao Santo Padre e que este se disfarçou de noite para verificar se o que diziam era verdade ─ de andar “na noite” a usar de misericórdia para com os pecadores, levando-lhes a salvação. Ao dar-se conta de estar a ser vigiado, Filipe terá dito: o homem sozinho não é capaz de fazer estas coisas.)
Toda a criatura é chamada ao serviço, não importa a condição social, título ou posição. Quem se julga elevado demais para trabalhos simples revela o vazio do coração. A dignidade não está em ser servido, mas em servir. Sem humildade, qualquer coisa que pareça virtude é apenas aparência. É assim, nos lares, é assim nas comunidades, é assim nas sociedades, etc. Quanto, nestes ambientes, por vezes, pessoas se querem servir de outras pessoas como escravas, querendo ser servida mais do quer servir, sem a reciprocidade, ainda que diferenciada, que é devida entre todas as pessoas. Na verdade, que só quem serve e é humilde é que dá conta do seu pecado, uma vez que, exceto Deus, todos pecamos. Através do cuidado para com as pequeninas coisas damos conta como é a santidade de alguém (ou a forma como alguém acolhe a santidade que vem de Deus). Quem não aprende a servir, jamais virá a ser capaz de amar a partir da humildade.
Segundo o que aprendemos na primeira leitura, é uma missão pessoal importante cuidar do dom espiritual que está em cada um de nós. É neste dom particular que podemos encontrar o ânimo suficiente para servirmos com humildade, o pouco que possamos fazer mas inteiros, conscientes de que o que Deus nos pede que façamos ninguém o poderá fazer por cada um de nós, porque nos atira para fora de nós mesmos. Assim, aquém de pecadores, porque a graça de Deus está primeiro, temos sempre a possibilidade de recomeçar desde a humildade. Tenhamos em conta que esta comporta um tipo de “etiqueta” que não é de inspiração humana, e exala um perfume “façonnable”, em que o princípio ativo é a misericórdia de Jesus que molda o estilo e a elegância dos seus penitentes, trazendo à tona a verdadeira essência de cada pessoa. O odor de Cristo enobrece o vaso humano que o transporta. O perfume é a atitude humilde, que faz com que o cheiro do pastor e das ovelhas seja um só.
APP perfume façonnable do Evangelho:
Quando se une a fragrância da misericórdia de Jesus coma fragrância da humildade humana, daí deriva um perfume novo: a piedade recíproca entre Deus e as suas criaturas.
