Jesus profere as palavras que proclamamos no Evangelho deste domingo estando a fazer a sua última viagem para Jerusalém. Seguia-O uma multidão eufórica. Porém, Jesus não Se exalta, para testemunhar que segui-l’O é outra coisa que viver eufóricos. Por isso, as suas palavras são sérias! Quem quiser seguir-Me…
O tema do seguimento de Cristo ─ ser discípulos ─ é um tema muito vasto que constitui o cerne da vida cristã. Este tema é-nos apresentado por Jesus como algo dinâmico, que implica a construção de uma vida, desde os alicerces até ao término da própria vida. Naquela “torre” ou naquela “guerra” podemos ver a vida toda, entendida como projeto vocacional, podemos ver a profissão, um desafio que precisemos de enfrentar ou qualquer outra dimensão da nossa existência, diante das quais precisamos de ponderar as nossas possibilidades.
É claro, nas palavras de Jesus, o critério de Deus para conseguirmos vencer na vida: tomar a própria cruz para O seguir, o que implica sempre uma renúncia aos bens pessoais. Na prática, trata-se de olhar para o projeto de vida, incluindo a eternidade que somos chamados a abraçar desde já, relativizando as coisas terrenas. A paz tem como condição perceber que o “tabuleiro” da nossa vida tem um dos “encontros da ponte” lançado sobre a eternidade.
Mas Jesus não nos convida a renunciar aos bens da nossa vida terrena em vão: propõe-nos preferi-l’O a Ele. Só somos capazes de renúncias (aspeto negativo) se também tivermos preferências (aspeto positivo). O Senhor não nos chama a ser cáusticos ou assépticos quanto à forma de viver na terra, mas a saber lidar com as coisas da terra a partir da forma como Ele as vê e as vive. E não só no que toca à posse de bens, mas também aos relacionamentos humanos, entre os quais o “pai, a mãe, a esposa, os filhos, os irmãos, as irmãs” e consigo mesmo. Partindo de Cristo, a vida tem mais sabor a Reino de Deus.
Jesus, ao convidar-nos a preferi-l’O a Ele não nos está a dizer que não devemos amar os nossos entes queridos. Pelo contrário: está a informar-nos que amando-os a partir da preferência a Ele, iremos amá-los ainda mais. Porque o amor de Deus é incondicional e nem sempre amamos os nossos entes queridos incondicionalmente, como Deus. Preferir Jesus ajuda-nos, inclusivamente, a suportar aquilo que dentro das nossas famílias nos é difícil de suportar. E é aqui que, porventura, está traçada a nossa cruz pessoal: naqueles que só conseguiremos amar com amor gratuito através do amor de Deus que Jesus nos veio demonstrar.
Por outro lado, Jesus não quer que idolatremos os nossos entes queridos, a nossa família, mas que saibamos ir mais além na relação com os outros. E a todos, convida-nos a amar com ternura gratuita. Há quem viva acorrentado dentro das relações familiares sem poder viver livremente a sua vocação pessoal. Prova disso é o número crescente de jovens adultos cujos pais impedem de escolher uma vocação de consagração especial. Quem tenta escapar da cruz sofre ainda mais e Deus não quer que soframos ainda mais. Viver a verdadeira liberdade implica não renunciar à dinâmica da cruz, mas sim às coisas que nos acorrentam à escravidão. O sofrimento que Jesus nos propõe não é superior às capacidades humanas, mas somente a vontade de Deus que é a vida eterna do ser humano. Como dizia Santa Teresa de Calcutá, “tudo o que não serve pesa”. Então, o caminho que o Senhor nos propõe é transportar só o peso que liberta, a “carga leve” da salvação.
O que edifica verdadeiramente a vida de um ser humano à face da terra não é possuir muitas coisas, mas amar bem. Exemplos eloquentes da Palavra deste domingo são os que hoje o Papa Leão XIV canoniza como Santos, em Roma: Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis. As suas vidas, curtas, mas plenas de sentido, recordam-nos de que a fé não é um sonho distante, mas uma realidade que se vive, com alegria, coragem e generosidade, mesmo na juventude.
A liturgia de hoje traz-nos duas aplicações práticas para podermos tomar a cruz pessoal e seguir Jesus:
Primeira APP:
A HUMILDADE. A sabedoria de Deus não é fruto do nosso esforço, a não ser em ser humildes para a podermos acolher no dia-a-dia, em cada ocasião em que Deus nos dá oportunidade para sermos humildes. A sabedoria dá-a Deus aos humildes.
Segunda APP
O ACOLHIMENTO. Jesus pede-nos que não idolatremos os nossos familiares, mas pede-nos que os amemos, também, incondicionalmente, incluindo tudo aquilo de que gostamos menos. Assim, aprenderemos a amar melhor todas as pessoas como criaturas, especialmente as vitimas da indiferença social.
