L 1 Is 66, 18-21; Sl 116 (117), 1. 2 L 2 Heb 12, 5-7. 11-13 Ev Lc 13, 22-30, no XXI Domingo do Tempo Comum (C). Reflexão em parte inspirada em Ermes Ronchi.
À primeira vista, as palavras de Jesus ─ sobre a porta estreita e sobre as renúncias que é preciso fazer para entrar nela ─ são angustiantes. Mas, será que são as palavras de Jesus que nos geram angústia? Ou serão libertadoras do que nos aprisiona ao supérfluo e mesquinho? Jesus faz as vezes daquele Pai que corrige porque ama. Ele corrige as nossas petições e perguntas mesquinhas e marginalizantes para nos abrir a novas e amplas perspectivas de vida.
Analisemos porque e como é que chegamos a esta proposta de Jesus:
1) Alguém de dentro da multidão perguntou a Jesus algo que estava presente na cultura daquele tempo, sobre se a salvação era para cada pessoa ou se era reservada a alguns: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. Não admira, ainda hoje esta perspetiva está presente em algumas correntes de espiritualidade! Quem faz esta pergunta sabe que Jesus é perito nas Sagradas Escrituras e quer saber qual é a sua orientação teológica. Na verdade, naquele tempo a certeza era a de que a salvação era reservada ao povo de Israel, dos que comeram e beberam com Jesus e viram-n’O ensinar nas suas praças. Mas… o Reino de Deus não é uma questão de comida ou bebida. E não basta escutar Deus, mas cumprir a sua vontade.
2) Jesus não responde diretamente a esta pergunta, que é feita em termos de quantidade. Jesus corrige a pergunta, respondendo qualitativamente, direcionando os ouvintes para outra perspetiva: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita…”. A perspetiva de Jesus presente no Evangelho de hoje é a que está presente na profecia de Isaías: “Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações”. Portanto, a salvação é um proposta para “todos, todos, todos” como o Papa Francisco repetiu na JMJ Lisboa 2023 (embora não valha tudo, tudo, tudo). A resposta de Jesus vai mais ao encontro da pergunta do jovem rico: “Bom Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?” (Lc 19,16-22).
3) O próprio Deus, ao decidir incarnar no meio de nós em Jesus passou por essa porta estreita. Porque não haveríamos nós, também, de passar por ela para habitarmos o seu Reino glorioso? A porta proposta por Deus é o próprio Jesus, o seu modo de olhar a realidade, as pessoas e de viver e interagir com elas. A porta do Evangelho que Jesus nos propõe é estreita, mas está sempre aberta e suficiente para todos, como a graça de Deus. Ao passo que esta graça só será eficiente se nós quisermos. O “queijo” é dado todo por Deus ao ser humano; porém, quem tem a “faca” é cada ser humano que a toma livremente, para saborear do mistério de Deus o que cada um decidir.
4) Vivermos as palavras exigentes de Jesus não é meramente uma questão de os prepararmos para o fim, como se a porta fosse só a porta do Céu. Deixemo-nos de mitos urbanos! É no caminho, é no dia-a-dia! É aceitar viver segundo o Espírito de Jesus, na forma como saímos fora da nossa própria porta de casa, com uma atitude ajustada à realidade e procurando estar responsivos nos momentos em que os desafios nos aparecem à frente. É ali que eu posso perguntar-me se a silhueta da minha alma (vida ou espessura interior, mais do que as medidas físicas do nosso corpo) é coerente com o Evangelho. O desafio quotidiano é tentar “decalcar” a nossa forma de estar no estilo de vida de Jesus. Assim, também poderemos ser “porta estreita” por onde os que hão de chegar a Jesus e viver por Ele.
O Senhor não quer nos desanimar, disse o Papa, “as suas palavras servem, antes de mais nada, para abalar a presunção daqueles que pensam que já estão salvos, daqueles que praticam a religião e, por isso, se sentem tranquilos”, e completou dizendo que é bonita a provocação que nos chega do Evangelho de hoje: “Não basta realizar atos religiosos se estes não transformam o coração. A nossa fé é autêntica quando envolve toda a nossa vida, quando se torna um critério para as nossas escolhas, quando nos torna mulheres e homens que se comprometem com o bem e apostam no amor, tal como fez Jesus. Ele não escolheu o caminho fácil do sucesso ou do poder, mas, para nos salvar, amou-nos até atravessar a ‘porta estreita’ da Cruz. Ele é a medida da nossa fé, Ele é a porta que devemos atravessar para sermos salvos, vivendo o seu amor e tornando-nos, com a própria vida, agentes de justiça e paz.”
─ Papa Leão XIV
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Aprofundar com uma outra reflexão.
