navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1  Jz 9, 6-15; Sl 20 (21), 2-3. 4-5. 6-7; Ev  Mt 20, 1-16a, na Memória de São Bernardo de Claraval. Por ocasião de um Aniversário de Matrimónio

Jesus hoje compara-nos o Reino dos céus como um proprietário que contrata trabalhadores para a sua vinha desde uma hora muito cedo até ao entardecer. Contemplo nesta comparação de Jesus acerca do Reino de Deus duas caraterísticas importantes: a primeira é a do espírito colaborativo de um dono a respeito da sua atividade; a segunda refere-se à diversidade temporal dos trabalhadores. Jesus faz-me lembrar aqueles empresários ou gestor de projetos que para realizar uma obra sabem que têm de organizar uma linha temporal em que entram vários tipos de trabalhadores são chamados a realizar tarefas em cascata.

A Igreja está a tentar imitar Jesus ao propor-nos um caminho de renovação ─ que não tem nada que ver com a alternância ou tensão entre conservadorismo/tradicionalismo e progressismo ─ próprio da sua responsabilidade diante da proposta que é a “seiva” do Evangelho e através do “motor” que é a Tradição apostólica. Assim, por exemplo, a Igreja é chamada não só a sensibilizar homens de várias gerações que possam viver o ministério ordenado, mas também a revalorizar os ministérios laicas para uma Igreja ministerial.

Hoje, dentro desta Liturgia da Palavra, gostaria de considerar os ministérios enraizados nos Sacramentos da Iniciação Cristã e, mais concretamente, no Sacramento do Matrimónio. Na verdade, os ministérios ordenados que representam Cristo-Cabeça, e não o Cristo-todo, “não esgotam nem absorvem ou concentram toda a rica ministerialidade com que se tece e embeleza o corpo de Cristo. E os diferentes ministérios, derivem de onde derivem, “não estão entre si numa relação de superioridade ou inferioridade, mas de complementaridade na diversidade, e no serviço e acolhimento recíprocos” (n. 8 da carta da CEP “Ministérios laicais para uma Igreja Ministerial”). Eu acrescentaria aqui, também, que a Liturgia da Igreja para que esta possa ser e estar «em saída» não esgota a necessidade de ministérios ou serviços a serem reconhecidos, formados e vividos em outros âmbitos da pastoral da mesma Igreja.

Por exemplo e mais especificamente, na própria família construída com base no Sacramento do Matrimónio, os esposos constituem-se como ministros, desde a celebração do Sacramento (em que o padre é somente assistente qualificado) e durante a vida até à morte.

Na exortação Familiaris Consortio, o Papa João Paulo II escreveu no n. 21 que

os pais exercerem a sua autoridade irrenunciável como um «ministério» verdadeiro e pessoal, ou seja, como um serviço ordenado ao bem humano e cristão dos filhos, ordenado particularmente a proporcionar-lhes uma liberdade verdadeiramente responsável; e se os pais mantiverem viva a consciência do «dom» que recebem continuamente dos filhos.

E, quanto à missão educativa, afirma no n. 38:

O dever educativo recebe do sacramento do matrimónio a dignidade e a vocação de ser um verdadeiro e próprio «ministério» da Igreja ao serviço da edificação dos seus membros. Tal é a grandeza e o esplendor do ministério educativo dos pais cristãos, que Santo Tomás não hesita em compará-lo ao ministério dos sacerdotes…

E remontando à primitiva Igreja, no sentido da evangelização diz no n. 39:

Também o Sínodo, retomando e desenvolvendo as linhas conciliares, apresentou a missão educativa da família cristã como um verdadeiro ministério, através do qual é transmitido e irradiado o Evangelho, ao ponto de a mesma vida da família se tornar itinerário de fé e, em certo modo, iniciação cristã e escola para seguir a Cristo. Na família consciente de tal dom, como escreveu Paulo VI, «todos os membros evangelizam e são evangelizados».

Quanto ao serviço eclesial e valorizando a Igreja doméstica, João Paulo II diz no n. 53:

O ministério de evangelização dos pais cristãos é original e insubstituível: assume as conotações típicas da vida familiar, entrelaçada como deveria ser com o amor, com a simplicidade, com o sentido do concreto e com o testemunho do quotidiano.

No n. 75 da exortação apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco chama os esposos “ministros do Senhor, para responder à vocação de Deus”. E no n. 75 chama-os “ministros educativos”.

Voltando à consideração inicial das duas caraterísticas do trabalho no Reino de Deus, os que vivem aquilo que alguns pastores da Igreja gostariam de ver considerado a “Ordem do Matrimónio” vivem um ministério complementar, não menos inferior aos que vivem a Ordem do Sacerdócio. Como projeto de Deus “em cascata”, se queremos padres, teremos de sensibilizar jovens rapazes e raparigas que escutem e respondam à vocação à família.

Talvez hoje sejam os sacerdotes a precisar de ouvir o que Jesus diz aos que reivindicam maior “pagamento”: Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom? Por vezes, é subtil o que quem vive um ministério pede: pode ser em dinheiro ou até em poder, muitas vezes longe da convicção de que, afinal de contas, nos está prometido o mesmo Reino. Tenho para comigo que, hoje em dia, o matrimónio e a família constitua a dimensão que devêssemos considerar como o “espinheiro” referido no Livro dos Juízes, cujo espírito deveríamos deixar “reinar” para que a complementaridade de todas as vocações e ministérios pudessem abrigar-se à sua sombra.