navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1  Jr 38, 4-6. 8-10; Sl 39 (40), 2-3. 4. 18; L 2  Heb 12, 1-4; Ev  Lc 12, 49-53, no 20º Domingo do Tempo Comum (C) e fim da Semana Nacional da Mobilidade Humana. Reflexão em parte inspirada no Padre Ermes Ronchi

Numa época grave de incêndios, à primeira vista poder-se-ia dizer de Jesus o que os contemporâneos do profeta Jeremias diziam a respeito dele: esse Jeremias deve morrer, porque semeia o desânimo entre os combatentes que ficaram na cidade e também todo o povo com as palavras que diz. Este homem não procura o bem do povo, mas a sua perdição. A cisterna onde colocaram o profeta à fome pode bem ser sinal da ignomínia da cruz que quiseram impor a Jesus. Jesus só a suportou respondendo com amor e não com violência, qual “cisterna” que Ele enchei da água nova, revivificante, do Batismo, onde só havia lama.

Talvez possamos compreender as palavras de Jesus tendo em conta os seguintes pensamentos:

1) O Deus que Jesus nos veio revelar com a sua presença não é um Deus neutro, como, na verdade, não há nenhuma pessoa neutra no mundo. Também Ele não é. Entre vítimas e algozes, Ele toma partido pelas vítimas. O tempo em que foi escrito este Evangelho era de perseguição de cristãos, o que levou Lucas a lembrar que Jesus esteve sempre da parte dos pequeninos, dos vulneráveis. Não admira que a crucifixão de Jesus tenha dividido pessoas dentro das famílias e das comunidades (lembremo-nos dos discípulos de Emaús). João, no Apocalipse, fala-nos da testemunha fiel que diz: Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno – e não és frio nem quente – vou vomitar-te da minha boca (Ap 3,14-16). Não se consegue seguir Jesus e ser-se missionário da sua Boa Nova na mornidão (tibieza). O biblista Ermes Ronchi cita Charles Peguy para falar dos cristãos que são tépidos dizendo: Um pecador pode ser feito santo/ um pagão pode ser feito cristão,/ mas o que faremos com aqueles que não são nada,/ nem pecadores nem santos,/ nem cristãos nem pagãos,/ nem quentes nem frios,/ os mortos-vivos?

2) Crer e seguir Jesus, igualmente, não deixa ninguém indiferente ao mal e às injustiças. Se é possível, através da vida cristã, alcançar uma vida verdadeiramente boa e feliz, só pode ser através de uma vida virtuosa e significativa, e não apenas de prazeres momentâneos, o que os gregos chamavam de eudaimonia, e que hoje traduzimos por espírito bom, que ajuda a viver a vida tendo como modelo a beleza divina. O que não nada que ver com as falsas pazes que, por vezes, o ser humano procura conquistar ou estabelecer através de meios injustos ou pouco éticos. Neste sentido, o Papa Francisco lembrou-nos várias vezes que alguns seres humanos usam a religião para fomentar guerras, quando a religião só pode favorecer a fraternidade universal e a paz. Também a Cruz de Cristo não serve só para trazer ao peito e e objeto mágico; não tapa buracos, mas derruba muros. Onde houver violência e injustiça, Jesus lá se torna presente como ressuscitado para nos lembrar que tudo o que é mal não se deve repetir. A Cruz de Cristo é um instrumento de salvação porque é a avivador da memória a dizer que deve prevalecer a vida em vez de prevalecer tudo o que leva à morte. Com a sua atitude, Jesus não quer só ajudar a apagar incêndios, nem somente fazer acordos humanos de paz, mas prevenir e curar as causas do mau trato da criação e das guerras entre os seres humanos. E isto só é possível com a Sabedoria de Deus!

3) O “fogo” de Jesus é a sua paixão pela humanidade. É o Espírito Santo. É o ânimo parecido com Jeremias, que foi profetizar contra aqueles que bajulavam o rei, sabendo que isso iria acarretar consequências para ele. Nesta época de incêndios, “fogo” pode traduzir-se por “água” que anula as chamas que destroem a criação e que irmana profissionais e civis na mesma obra da defesa do bem comum. O “fogo” de Jesus é toda a denúncia que ouve os gemidos e defende os “escravos” de hoje contra os “faraós” de todos os tempos. É coragem para defender a verdadeira paz, a duradoira e para todos, em vez da que os humanos tentam negociar para estratificar. Desta forma, um crente com paixão por Jesus sabe que viverá contra-corrente, fazendo parte daquele grupo que quer a humanização em vez da desumanização, que quer a paz em vez da guerra, que lutam pela liberdade contra a tirania dos poderosos. Aquele “fogo” que Jesus veio trazer é o amor de Deus e faz-nos viver acesos, para levarmos esse amor lá onde o ser humano tende a fechar os largos horizontes de Deus para a humanidade. Em boa verdade, quando as relações entre as pessoas são de subjugação e de medo, as “cisternas” só terão lama em vez de água para apagar todos os tipos de incêndios que ameaçam a vida da humanidade. Precisam-se “bombeiros” como Ebed-Melec, o etíope, que estejam à hora certa e no lugar certo, diante das pessoas certas, para defender a vida que Deus nos deu.

O jogo que Jesus veio trazer à terra faz-nos ser missionários da esperança, partilhando, com os migrantes e refugiados, responsabilidades na construção de um mundo melhor.

Seria trágico (já só pensar) que na hora em que se combatem os incêndios viesse uma tremenda chuvada que os apagasse completamente, ou na hora em que todas as bombas se transformassem em pão e carne ao cair nas ruas ou por cima das casas, alguém pudesse ficar triste de morte. Assim é, para alguns habitantes da terra, a promessa do amor de Deus pelo qual os crentes não tíbios dão a vida.