navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45), 10. 11. 12. 16 L 2 1Cor 15, 20-27 Ev Lc 1, 39-56, na Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Maria foi a primeira evangelizadora da história. É sobre Ela que se pode dizer com mais propriedade Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião… (Is 52,7). De facto, o episódio há pouco proclamado, que no ocidente chamamos de Visitação, no oriente cristão é chamado de Evangelização. A forma como é professado que Ela subiu aos céus tem que ver com a forma como Ela respondeu e caminhou na terra: uma constante encarnação do Verbo.

Lemos esta introdução do serviço nacional de Liturgia: A Assunção da Virgem santa Maria, Mãe de Deus e nosso Senhor Jesus Cristo, celebra a sua elevação em corpo e alma à glória do céu. A Dormição e a Assunção da Virgem Maria, no Oriente e no Ocidente, são das mais antigas festas marianas. Esta verdade de fé, recebida da tradição da Igreja, foi solenemente definida pelo papa Pio XII, em 1950.

Neste Céu para onde Nossa Senhora foi elevada em corpo e alma, São João evangelista viu dois sinais:

1) O primeiro é grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés… estava para ser mãe e gritava com as dores da maternidade. Este sinal refere-se ao projeto de Deus, de se abeirar da humanidade, de estar presente de uma forma mais… humana, e não menos divina.

2) O segundo sinal não é grandioso, mas refere-se a um enorme dragão cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres… que se coloca diante da mulher que está para ser mãe, para lhe devorar o filho logo ao nascer. Este sinal refere-se à resistência humana ao que vem de Deus e às contrariedades que surge no caminho de quem se dirige ou decide viver livremente para e com Ele.

Depois da evocação dos dois sinais, João publica o desfecho que é: Ela teve um filho varão que há de reger todas as nações com cetro de ferro. Quer dizer que aquela forma adversa a que se referia o segundo sinal não teve a última palavra, quer dizer, não levou a melhor diante do projeto de Deus. Porém, referindo-se esta visão a toda uma análise da história, após a glorificação daquele Filho, somos chamamos a refletir que aquela mulher ─ outrora Maria no momento da conceção do nosso Salvador ─ é, também, hoje a Igreja, impelida para o deserto, onde pode continuar a confiar mais no projeto de Deus do que a temer diante das insidias do mal.

Qual foi o segredo de Maria, para não dar ao mal a última palavra, e para confiar no projeto de Deus? O segredo que a levou a subir ao Céu é o mesmo que a manteve ligada à terra: o seu sim ao serviço da Palavra de Deus. Não é uma mera honra, embora nos honremos d’Ela, mas é uma consequência direta da sua forma de estar diante de Deus e da humanidade. Diante da cultura de desumanização, Maria ensina-nos que a humanização é a melhor evangelização. E porque a Igreja crê que Ela subiu ao céu em corpo e alma, quer dizer que não existe alma santa sem a consideração do corpo.

Maria subiu ao céu para de lá nos mandar uma “corda” de esperança (em hebraico esperança é mesmo “corda” = tikva). Esta “corda” foi lançada por Deus e agarrada desde a fé de Abraão até ser mais visível em Jesus Cristo. Uma vez glorificado, Ele continua ─ através de Nossa Senhora e os Santos, incluindo aqui todos os Batizados (os santificados em Cristo que São Paulo chamava de “santos” cf. 2Cor 1,1) ─ a vir em auxílio dos que vivem o confronto com o mal na hora de escolher ou defender o projeto de Deus.

Ontem a Igreja celebrou a memória de S. Maximiliano Kolbe, que disse um dia: “O ódio não é uma força criativa: é-o o amor”.

Quem quer que tu sejas,
que no fluxo deste tempo percebas que,
mais do que caminhar sobre a terra,
estás como que baloiçando entre tormentas e tempestades,
não desvies os olhos do esplendor desta estrela,
se não queres ser subjugado pela tempestade!
Se fores sacudido pelas ondas do orgulho,
da ambição, da calúnia, da inveja,
olha para a estrela, invoca Maria.
Se a ira ou a avareza, ou as lisonjas da carne
abalaram a barquinha do teu ânimo, olha para Maria.
Se perturbado pela enormidade dos teus pecados,
se confuso pela indignidade da tua consciência,
começas a ser engolido pelo abismo da tristeza
e pelo abismo do desespero, olha para Maria.
Não se afaste da tua boca e do teu coração,
e para obter a ajuda da sua oração,
não te esqueças do exemplo da sua vida.
Seguindo-A não podes desviar-te,
rezando-Lhe, não poderás desesperar.
Se Ela te apoiar, não cairás;
se Ela te protege não cederás ao medo,
se Ela te é favorável, alcançarás a meta.

─ São Bernardo de Claraval