L 1 Sb 18, 6-9; Sl 32 (33), 1 e 12. 18-19. 20 e 22 L 2 Heb 11, 1-2. 8-19 ou Heb 11, 1-2. 8-12 Ev Lc 12, 32-48 ou Lc 12, 35-40, no XIX Domingo do Tempo Comum (C); início da Semana Nacional da Mobilidade Humana: Mensagem | Cartaz
Vamos imaginar, por alguns minutos, que as nossas casas estão a pegar fogo. Infelizmente, este é um facto atroz, que destrói não só a criação de Deus, mas também tantos anos de vida e de trabalho humano, para garantir o básico da sua segurança (como já é arroz sabermos que 1 em 4 incêndios têm origem em mão humana). Façamos, pois este exercício: imaginemos que as nossas casas estão a arder. Se nos fosse dada a possibilidade a cada um, em 60 segundos e com segurança, para ir lá buscar 1 ou 2 coisas, o que traríamos de volta para aqui? Façamos esta viagem às nossas casas com o coração como “cesta” e até já…
(Depois de 60 segundos de silêncio…) Agora seria interessante partilharmos uns com os outros o que trouxemos no coração. Mas não sairíamos daqui a tempo do almoço, nem seria a celebração da Eucaristia (muito embora esta também será muito pouco se não estiver ligada com a realidade da vida concreta). Poderá acontecer que não trouxemos de lá nada de material; pode ser que só nos lembrámos dos nossos entes queridos; e até pode dar-se que os que guardamos no coração já estejam no Reino de Deus a que chamamos de “Céu”… Pode ser, também, que alguém não tenha saído sequer daqui, desta casa comum a que chamamos igreja, onde todos os domingos, em especial, o nosso coração não só guarda Deus, mas também se sabe guardado por Deus no seu coração de Pai. Enfim, podem ter passado pela nossa mente e pelo nosso coração muitas coisas…
A Palavra de Deus não deixa dúvidas do que é preciso fazer: Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Se fosse eu, em vez de Jesus, a dizer-vos isto pela primeira vez, nos dias de hoje, dir-me-íeis: “o sr. padre não tem os pés bem assentes nesta terra”. E eu responder-vos-ía: o foco do Evangelho não está nos pés, mas nos rins e nos olhos. Podemos ter os pés a tocar no pó desta terra, mas os rins e os olhos, respetivamente, por vezes, filtram e veem mal a realidade. O conselho de Jesus é que os tenhamos cingidos (os rins) e acesos (os olhos entendidos como lâmpadas). Estejamos onde estivermos. O autor da Carta aos Hebreus sugere-nos crer nos “bens que se esperam” e desejar com todo o coração “as realidades que não se veem”!
Os dramas que estão a acontecer no mundo que é a nossa casa comum ─ que está a “arder” de muitos modos, ao perto e ao longe, com uma gradação muito diversa de gravidade ─ são suficientes como prova de teste sobre onde a humanidade se situa entre o poder e o serviço. São estas perguntas que hoje o Senhor nos faz: queres colocar-te numa posição de poder ou queres servir?
Ser administradores fiéis e prudentes dos bens que o Senhor nos distribui e que procuramos trabalhar quotidianamente, implica mesmo isso: que tenhamos os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Como poderíamos traduzir isto hoje, que não seja por palavras abstratas? Talvez possamos sugerir: controlar os nossos desejos de poder, desejando só o essencial e o mais elevado; e estar atentos a quem está à nossa frente, acudindo ao que é mais urgente, prevenindo do perigo que está sempre à espreita. É ingenuidade pensarmos que os males graves só acontecem aos outros. Por outro lado, sem podermos acudir a urgências ou emergências também não poderemos provar o que valemos em termos de vivência do Evangelho.
Como nos prova a leitura do Antigo Testamento, Deus dá-nos oportunidades de prova, mas também não nos deixa sozinhos no meio dos dramas desta vida. O problema maior é se O subsituímos a Ele e aos outros (e até a nós mesmos) no momento de caminharmos juntos para a verdadeira vida, que não nos será tirada. É ao seu Povo que Deus nos chama, para, pela pertença nele, nos guiar para dias melhores e para a vida plena! É a justiça de ser Povo, esperançoso e inclusivo!
Mas para levar a cabo, à vida prática, o que estamos a refletir é preciso muita coragem profética! Não nos basta ficarmos em espiritualidades desincarnadas. É preciso fazermos escolhas. E não temos muito tempo para as fazer. Seria interessante que no nosso exame de consciência diário pudéssemos repetir o jogo que vos propus no início da homilia. Certamente, se o exame de consciência for bem feito, com verdade ou sinceridade, ver-nos-emos crescer mudando a profundidade do nosso olhar e o critério das nossas escolhas.
É isso que o Santo Padre nos pede com a sua Mensagem para o 111º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, oportuna também para vivermos esta Semana do Nacional do Migrante em Portugal. Acolher e conviver/interagir com os “migrantes (como) missionários da esperança”. Refletir sobre a relação entre esperança, migração e missão é, ao mesmo tempo, oportunidade para não trabalharmos para dentro de nós próprios ou para os nossos interesses pessoais e comunitários, mas também fazer alguma coisa para fora: a partilha de responsabilidades, à cooperação multilateral, à realização do bem comum e à solidariedade global em benefício de toda a família humana. Na missão, não se pode falar de um que ensina e de outro que recebe. Todos somos chamados a dar e a receber alguma coisa quanto ao caminho, à verdade e à vida que é Cristo, na missão em Igreja. Na verdade, alguém tem de se antecipar (“primeirear”, como disse Francisco). E é nesta antecipação que reside a esperança que não desilude. Onde habita Cristo.
Durante esta Semana Nacional do Migrante, temos a oportunidade de aprofundar, vivendo, o que o Papa Francisco nos convidou a refletir e a viver no n.º 13 da Bula com a qual abriu este Jubileu da Esperança: de nos pormos “na pele” dos migrantes, acolhendo-os com braços abertos e respeitando a sua dignidade, ajudando-nos mutuamente a construir um mundo melhor. Com os migrantes e refugiados, aprendemos que diante das coisas boas que nos acontecem, de manifestar a alegria à flor da pele. Porém, é mais diante dos acontecimentos dramáticos que damos a conhecer aos outros e até a nós próprios e nosso ser mais profundo. São os que possuem esta sabedoria profunda que se podem antecipar diante dos dramas próprios e dos outros, como se fosse uma boia de salvação.

