navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Pr 2, 1-9; Sl 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7. 8-9. 10-11 Ev Mt 19, 27-29, na festa de S. Bento, Padroeiro da Europa

Com a sua Regra, São Bento lançou os pressupostos comunitários que constituem a via para uma nova civilização, feita da sintonia entre a oração e o trabalho, num clima de caridade fraterna. A primeira leitura da liturgia de hoje remete-nos imediatamente para o prólogo da Regra beneditina, não deixando dúvidas da inspiração que a Palavra de Deus constituiu para o novo estilo de vida partilhado por São Bento. Veja-se a comparação abaixo:

Continuamos a dizer que no princípio está a Palavra, mas, na verdade, esgotamo-nos como Igreja no esforço de remendar odres velhos, em vez de embriagar as pessoas com o vinho novo da Palavra de Deus. Esta é uma afirmação profética do bispo italiano D. Tonino Bello (já falecido) que nos pode ajudar a compreender a revolução que São Bento operou a partir do centro Europa, partindo da relação com a Palavra de Deus num clima de paternidade e de fraternidade.

A partir da Palavra de Deus, que São Bento tão bem soube escutar como proposta de vida nova, podemos perceber como o que nos define não é o que fazemos, mas a forma como o fazemos a partir do ser que nos define: a dignidade infinita. Por isso, antes de pensarmos no que haveremos de fazer, é prioritário conhecer o que somos, não só como indivíduos, mas também como comunidade. E do que somos chamados a ser! Se nas atividades humanas sociais a associação de pessoas tem muito poder, imaginemos o poder que existe num grupo de pessoas que perseguem um ideal.

Porém, as atividades humanas tendem a atrair muitas pessoas para o abismo da competitividade veloz, que não dá tempo para escutar nem pensar, levando uns a ganhar com a vida dos outros. O que redunda numa exploração ou manipulação desleal. O que também pode acontecer no âmbito religioso!

Ao contrário, as relações de paternidade/filiação e fraternidade, partem da escuta do ser e desenvolvem-se em atividades que edificam a eternidade. Nestas relações fundadas em Deus, mude-se o que se tiver de mudar, para se defender o que nunca muda. É isso que prova o percurso de vida do nosso irmão Bento de Núrsia!

O Evangelho deste dia não nos deixa dúvidas sobre o horizonte para o qual Jesus, Palavra viva, nos quer orientar: o mundo renovado e a herança eterna que nele se preconiza. Diversas vezes, os sumos pontífices da Igreja Católica entusiasmaram os jovens nas Jornadas Mundiais da Juventude, a não terem medo de seguir Jesus Cristo, porque Ele “não tira nada, mas dá tudo”. É esta a mensagem do Evangelho que se proclama nesta Festa de São Bento, contrastante com a publicidade de quem só ter ser rico neste mundo ignorando as riquezas insondáveis do Reino de Deus.

A este respeito, é curioso que os depoimentos de quem experimentou o transe pós-morte sejam unânimes em afirmar que o que lá se viu ou sentiu parece impedir a vontade de voltar a esta terra (ver também aqui). Só mesmo por missão! Já o dizia São Paulo (Fil 1,21-26):

É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Se, entretanto, eu viver corporalmente, isso permitirá que dê fruto a obra que realizo. Que escolher então? Não sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós. E é confiado nisto que eu sei que ficarei e continuarei junto de todos vós, para o progresso e a alegria da vossa fé, a fim de que a glória, que tendes em Cristo Jesus por meio de mim, aumente com a minha presença de novo junto de vós.

Portanto, viver na terra com um desejo incontornável de vir a estar no Céu muda o modo de viver aqui na terra, de maneira a transformar a vida dos seus habitantes na predisposição à vida eterna.