

Li, há dias, uma afirmação do bispo Tonino Bello (já falecido) que dizia: “Continuamos a dizer que no princípio está a Palavra, mas, na verdade, esgotamo-nos como Igreja no esforço de remendar odres velhos, em vez de embriagar as pessoas com o vinho novo da Palavra de Deus”.
Aplicado ao Evangelho de hoje ─ em que o Senhor nos diz “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara” ─ poderíamos refletir que no princípio está a grande seara e o seu dono que é Deus e, frequentemente, passamos o tempo a lamentar-nos pela falta de padres e outros agentes pastorais, e no tanto que há para fazer. Quando o que Jesus nos pede é que Lhe peçamos que Ele mande trabalhadores como Ele quer. Não para continuar a fazer-se o que sempre se fez, mas para realizar a grandiosidade da missão!
E Jesus, ao fazer aquela afirmação, não perde tempo. Imediatamente faz o envio dos seus discípulos “como cordeiros para o meio de lobos”, dando-lhes instruções precisas de como devem ir e viver em missão. E o objetivo da missão é só este: anunciar a Paz do Reino de Deus. Na missão, as palavras são poucas, mas a forma de estar é inequívoca. As atitudes não deverão deixar dúvidas de que quem manda é Deus!
De um anúncio credível e de uma escuta atenta ao Evangelho só podem resultar a alegria e a paz. A Palavra de Deus continua com o mesmo vigor, mas estaremos nós capazes de a escutar sem ruídos? Jesus garante-nos que a alegria e a paz é tanto para quem anuncia a a Palavra de Deus como para quem a recebe.
Por outras palavras, o bispo norte-americano Robert Barron (ver vídeo abaixo) diz que o fruto do silêncio é a oração, o fruto da oração é a fé, o fruto da fé é o amor, o fruto do amor é o serviço e o fruto do serviço é a paz. A paz é o que toda a gente quer, mas temos de começar pelo silêncio! Não basta fazer, fazer, fazer… ir, ir, ir. É preciso sentar, calar e saborear. Para alcançarmos a paz que o Senhor nos manda, é preciso percorrer aquele caminho que começa com o silêncio para escutar Deus que, por vezes, também nos fala a partir das aspirações do ser humano.
A profecia de Isaías traz-nos esse convite a “beber e a saciar-nos com o leite das suas consolações” (de Deus) e a “deliciarmo-nos no seio da sua magnificência”. E o profeta di-lo com com gestos humanos e um bem-estar que vem do usufruto dos bens naturais. Para isso, é preciso gastarmos tempo com Deus, a começar pelo silêncio. A partir do silêncio, pela sua Palavra, Deus é capaz de recriar no nosso coração o início de um caminho novo ─ não só pessoal, mas também comunitário ─, de encontro ao mais urgente e ao essencial. Tudo o que Ele nos quis ou quer dar já está à nossa disposição. Porém, não é fácil de ver por causa da confusão e da velocidade a que estamos sujeitos no mundo.
Quando, em resposta à primeira leitura, cantámos “A terra inteira aclame o Senhor”, com a ajuda do Salmo 65, hoje poderíamos acrescentar que a terra reclama ao ser humano que aprenda a viver uma ecologia integral, no respeito para com a benevolência do Criador. Nós não somos Deus e a terra precede-nos e foi-nos dada. Criados à imagem de Deus, somos chamados a viver a liturgia de cada domingo como uma nova criação. Foi este o sentido que presidiu à criação dos formulários da Missa pela proteção da Criação com que o Santo Padre vai celebrar no próximo dia 9 de julho.
Ao garantir-nos que “o que tem valor é a nova criatura”, o Apóstolo quer-nos ensinar que não nos devemos agarrar aos meios do mundo como coisas absolutas ─ incluindo as coisas e os meios com que vivemos a religião! ─ porque “nem a circuncisão, em a incircuncisão valem alguma coisa”. A paz e a misericórdia vêm-nos de Deus. Ao convidar-nos a olhar para a cruz e os estigmas de Jesus, Paulo quer ajudar-nos a viver as nossas limitações e fraquezas como oportunidades para nos deixarmos amar pelo Senhor e para aprendermos a amar mais os outros, sem julgamentos ou condenações. Tenho para comigo que viver as limitações e fraquezas sem masoquismo nem sadismo implica apoiarmo-nos na sabedoria de Jesus, com a paz interior com que viveu as suas tribulações.
Empecilhos da missão:
- Estar só à espera de diplomados (embora seja precisa muita formação a vários), não dando precedência à atividade a partir do “sensus fidei” do Povo;
- Dar mais crédito aos meios do que à mensagem ou ao vigor da Palavra;
- Esgotar a pastoral no templo e nas assembleias litúrgicas, sem considerar suficientemente os dinamismos das Igrejas domésticas que são as famílias cristãs e a presença testemunhante na sociedade sociedade;
- Multiplicar palavras e subdividir os mandamentos em mil e uma regras, em detrimento do que é estritamente necessário para a salvação: querer livremente, viver e anunciar a paz que nos vem do amor de Deus;
- Não dar a primazia à Palavra, mas a algumas tradições dos homens muitas vezes falsamente defendidas como verdadeira Tradição da Igreja;
- Ficarmo-nos a lamentar diante daqueles que não querem, numa tentativa de uniformização, em vez de abrirmos as portas a todos os que querem com e apesar das suas diferenças;
- Abusar na substituição das consciências, em vez de acompanharmos com uma pedagogia assertiva a formação das consciências;
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