navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 12, 1-11; Sl 33, 2-3. 4-5. 6-7. 8-9 L 2 2Tm 4, 6-8. 17-18 Ev Mt 16, 13-19, no XIII Domingo do Tempo Comum (C), Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo

Há poucos dias aconteceu o Jubileu dos seminaristas em Roma, aos quais o Santo Padre explicou que “a força para continuar nasce da confiança ilimitada no Senhor” e pediu “que não desanimem no caminho”. E afirmou-lhes, também: “Se há uma coisa que não deixa dúvidas no Evangelho, é justamente esta: Jesus Cristo deseja ser nosso amigo. O segredo que formou os santos está todo aqui: a consciência da amizade de Jesus Cristo”.

Foi isso que, um dia, Jesus disse aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai» (cf. Jo 15,15). Entre senhor e servo há segredos, mas entre os amigos não há segredos. Entre senhor e servo há mandar e obedecer, entre amigos há viver a liberdade (que é sempre escolher o melhor) e a missão. Jesus age assim diante dos que procuram mais intimidade com Ele, porque no mundo há muitas leis e ordens a sufocar as relações e a presença. Li, à volta da celebração da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, um artigo que constatava isto:

Acabamos por viver como se o Seu amor estivesse condicionado à nossa perfeição. Como se a Sua proximidade dependesse de nunca errarmos, de nunca cairmos, de estarmos sempre à altura. (…) E talvez o caminho da fé passe exactamente por aí: por aprender a escutar esse pequeno fogo interior, essa faísca que nos faz parar por dentro, que nos faz sentir vivos e que nos dá a intuição de que Deus passou por ali. E, quando isso acontecer, talvez a melhor coisa a fazer seja parar e perguntar com simplicidade: o que foi que me tocou? Com quem estava? O que é que me despertou? Que circunstância havia à minha volta? De onde vinha eu? Que espaço se abriu?

Não para analisar ou controlar — mas para cuidar e para dar continuidade. Para não deixar perder essa presença discreta, mas transformadora. Porque é dessa chama, por mais pequena que pareça, que pode nascer e renascer tudo o resto. É a partir desse lugar que, pouco a pouco, nos vamos tornando mais livres, mais inteiros, mais próximos daquela bondade de que tanto se fala — não por força de vontade de adesão à regra, mas porque algo em nós mudou. Não há fórmulas nem há garantias. Mas há esta intuição: que a fé não é um projecto de perfeição, mas uma resposta frágil, humana e real ao amor que já nos foi oferecido. E que, se o coração ardeu — ainda que só por um segundo — talvez seja aí que Deus nos está a chamar.

Ora, a história dos Santos Pedro e Paulo, cuja solenidade hoje celebramos, mostra-nos precisamente isto: não se atreveriam a correr para alcançar Cristo, se Cristo não os tivesse alcançado primeiro, como rosto do amor incondicional de Deus.

Nos dois Evangelhos desta solenidade, o da vigília (Jo 21, 15-19) e deste dia (Mt 16, 13-19) mostram-nos as duas faces da amizade de Jesus Cristo: a primeira é a de uma amizade divina que desce ao grau de amar de que somos capazes (o diálogo de Jesus com Pedro resultou na sua declaração de amizade honesta: é este o ponto); a segunda é que Jesus busca nos seus discípulos uma resposta enamorada a partir de uma liberdade interior infundida pelo Espírito e não de um doutrinamento dominado pela carne humana. Por vezes, não é fácil libertarmo-nos daquelas coisas que nos são impostas pelas relações de sangue, preferindo deitar a perder a liberdade que nos é permitida viver pelos laços do Batismo. Não nos é fácil perceber, como ao Apóstolo Pedro, que o Anjo do Senhor nos pode libertar de todas as prisões se formos perseguidos e acorrentados por obedecermos mais a Deus que aos homens.

O Apóstolo Paulo dá-nos um testemunho sobre o que significa “esperar com amor” a vinda do Senhor. Refere que o Senhor esteve sempre a seu lado quando proclamava o seu Evangelho, sendo libertado da boca do leão. Na carta aos Gálatas afirmou que o Evangelho que proclamou não é de inspiração humana, mas o aprendeu pela revelação de Jesus Cristo. Outrora no judaísmo, ele perseguia a Igreja de Deus, procurando destruí-la, por ser zeloso na tradição dos seus pais; agora, ele é escolhido revelar a verdade de Jesus Cristo aos gentios, “não consultando a carne e o sangue” de só foi a Jerusalém ter com os Apóstolos depois da experiência do deserto e de voltar a Damasco, onde tinha sido salvo pelo Senhor. Também Paulo necessitou de personalizar a fé, não se ficando por aquilo que a Igreja diz, mas levando até à medula a força de Deus que permite viver como apóstolo.

No Jubileu dos Sacerdotes, que aconteceu nestes últimos dias em Roma, o Santo Padre, o Papa Leão XIV, deixou a seguinte exortação, que a todos nós nos ajuda a levar esta liturgia da Palavra para a vida quotidiana:

Gostaria de vos dirigir hoje um convite urgente: sede construtores de unidade e de paz. (…) Ser construtores de unidade e de paz significa ser pastores capazes de discernimento, hábeis na arte de compor os fragmentos de vida que nos são confiados, para ajudar as pessoas a encontrar a luz do Evangelho no meio das tribulações da existência; significa ser leitores sábios da realidade, indo para além das emoções do momento, dos medos e das modas; significa oferecer propostas pastorais que geram e regeneram a fé, construindo boas relações, laços de solidariedade, comunidades onde brilha o estilo da fraternidade. (…) Num mundo marcado por crescentes tensões, mesmo no seio das famílias e das comunidades eclesiais, o sacerdote é chamado a promover a reconciliação e a gerar comunhão.