navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 2Cor 12, 1-10; Sl 33 (34), 8-9. 10-11. 12-13 Ev Mt 6, 24-34, na memória de São Luís Gonzaga, religioso, e no aniversários dos meus 27 anos de Ordenação sacderdotal

A certeza na prevalência de Deus na minha vida tem pelo menos três razões ou provas:

1) A primeira é o facto de a sua misericórdia prevalecer sobre as minhas misérias;

2) A segunda é o facto de, ao gastar-me pelos outros, espiritual e materialmente, tem-me feito dar conta de que a Sua abundância nada me faz faltar para a existência do serviço aos outros;

3) A terceira ─ que está a ser objeto de exploração na minha atual meditação sobre o mistério do sacerdócio ministerial ─ é que cada vez que me sinto mais próximo e semelhante aos outros seres humanos (por vezes difícil para quem tem de assumir papéis ou cargos eclesiásticos, mesmo sendo-se humano), mais me sinto presbítero, quer dizer, mais me sinto participante do sacerdócio d’Aquele que “sendo rico Se fez pobre…” (2Cor 8,9), sentindo-me chamado a configurar-me continuamente não só com o Filho de Deus, mas no modo “Filho do homem”. Estou cada vez mais convencido de que o sacerdócio ministerial será mais eficaz se imitar Jesus no modelo do assemelhar-se com os seus, do que com o separar-se dos seus. O que entra em contradição com muitas posturas de sabor pessoal, mas também institucional, que implicam também uma certa indiferença ou relativização corajosa para com o apego a bens patrimoniais e institucionais acessórios.

O segredo do sucesso em servir só a Deus, segundo Jesus, é não preocupar-se demasiado com o que havemos de comer ou vestir (mesmo que sejam vestes eclesiásticas), uma vez que estas coisas são provisórias em relação à vida toda, porque acessórias a parte da vida. E o todo é superior à parte! Jesús María Castignani, na sua obra “Ama-te como Deus te ama” ajuda-nos a perceber que só nos poderemos superar a nós mesmos se construirmos a nossa independência pessoal na medida em que a mesma se transformar numa interdependência que se abre a vinculações e crua sinergias (cap. 18, pp. 259ss). Dizer o mandamento novo do amor ─ Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos ─ em linguagem antropológica seria: partir da confiança do amor incondicional de Deus nas nossas vidas, trabalhando pela independência pessoal daquilo que nos limita, e caminhando ao encontro da comunhão com os outros.

Suspeito que a indiferença em relação às coisas materiais é irmã gémea da inocência que caracterizou a vida de São Luís Gonzaga. “Renunciando ao principado em favor de seu irmão, entrou na Companhia de Jesus, em Roma; e, durante os estudos de Teologia, entregando-se ao serviço dos enfermos nos hospitais, contraiu uma enfermidade que o levou à morte”. À primeira vista, diante de olhares calculistas, a vida deste Santo parece ter ficado pela metade; e se não morresse tão cedo, quem sabe se ainda viria a ser padre! Mas não: ao olhar divino, a sua vida foi completa, porque entregue ao único bem necessário: o que se devolve a Deus por intermédio do serviço aos irmãos.

A inocência é o olhar do coração límpido que nos ajuda a ver e a agir a pensar “no Reino de Deus e na sua justiça”. E porque nem sempre é fácil sermos suficientemente indiferentes às coisas materiais, precisamos de exercitar a penitência. Mas cuidado! A penitência cristã, no meu modo humilde de ver, não é uma mera privação dos bens para nos acharmos mais puros, até porque pode ser em vão. Ela deverá dignificar uma atenção imediata aos mais pobres e/ou vulneráveis, onde ver Cristo a Quem servir. Nesta perspetiva, imagino haver muitas omissões “mascaradas” de penitência cristã.

No Evangelho, talvez Jesus não quisesse demonizar o dinheiro, mas somente aliviar o fardo de trabalhadores que não sabiam descansar, talvez com o medo de que os bens materiais viessem a faltar ou, até, pelo orgulho do zelo ou da boa fama do trabalho. Ter um só Senhor, isto é, Deus, implica também saber descansar e, no descanso, dar conta da boa medida das coisas: que o trabalho e o dinheiro são instrumentais, como todos as penitências e sacrifícios. Deus também está no trabalho humano, mas para nos darmos conta de que há uma justa medida e um horizonte final preciso, é preciso parar e descansar e saborear sua sabedoria infinita.

Como nos lembra o P. Vasco Pinto de Magalhães, s.j., “Só avança quem descansa; não morremos para descansar, mas descansamos para viver”. O que levou Paulo a gloriar-se nas suas fraquezas foi estar atento à afirmação de Jesus: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder». Há, na espiritualidade cristã, uma grande dose de boa fé na passividade espiritual que permite a Deus manifestar-Se e levar-nos para onde Ele designa. Não é que prescinda da nossa liberdade de escolha, mas nos impulsiona a baixarmos as resistências ao seu amor incondicional que nos atrai e constrói.

Ao longo destes 27 anos de vida presbiteral, estou certo de que o que sempre prevalece é o Deus fez a partir de mim, não obstante as minhas fragilidades e resistências. É o que Ele faz que é determinante e preponderante. Continuarei a treinar aquela penitência que me ajuda a evitar a indiferença aos irmãos necessitados. Não ficamos a dever a Deus se em vez de nos relacionarmos com as coisas no relacionarmos com as pessoas. Estas são dignas de relação, as coisas são úteis. Segundo Kant, só as pessoas é que são portadoras de dignidade. As coisas são portadoras de utilidade.