navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Gn 14, 18-20; Sl 109, 1. 2. 3. 4 L 2 1Cor 11, 23-26 Ev Lc 9, 11b-17, na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

A Eucaristia é o coração pulsante da Igreja. Este Sacramento fundado por Jesus foi-nos transmitido pelos apóstolos, porque nele temos acesso à máxima expressão do amor de Jesus, da sua paixão, morte e ressurreição. E, ao mesmo tempo, permite-nos viver à maneira d’Ele, no hoje da salvação. Neste Sacramento, prolonga-se a Redenção na história para toda a humanidade.

Gostaria de refletir hoje este mistério, auxiliado pelas leituras da celebração, sintetizando-o em três palavras:

1) Adoração. Não nos devemos cansar de dar graças pela presença real de Jesus em cada celebração da Eucaristia. Mais: a sua presença é sem hiatos, quer dizer, fora da celebração Ele continua sempre connosco. Como? No sacrário, onde Ele permanece como Eucaristia. E em cada um de nós, porque depois da comunhão O levamos como ostensórios ou custódias do seu amor por nós. E uma forma especial de dar graças diante de tão grande amor é a adoração. Num tempo tão distraído por barulho e vazios que se procura preencher, por vezes, com coisas que não vale a pena, precisamos de parar diante do Santíssimo Sacramento, no silêncio, manifestando a fé em que tudo o que precisamos ali o encontramos em Jesus vivo. Diante do sacrário, estamos sempre diante da morada do Deus Altíssimo que levou, outrora, Melquisedec, com um gesto, a prefigurar aquilo que hoje celebramos na Eucaristia, a partir da participação no Sumo e Único Sacerdócio de Jesus Cristo. Porque é que as portas dos nossos templos deveriam ter o máximo possível as portas abertas? Para que qualquer pessoa possa visitar Jesus no meio dos cansaços e desânimos da vida. Não se tem um sacrário para não ser visitado. No sacrário é para todos O poderem visitar. Todos nós, quando aqui chegámos, não só a este templo, mas também à vida cristã pelo Batismo, Jesus já cá estava, acolhido pelos nossos antepassados, catequistas e presbíteros. Cabe a cada um de nós, a partir de uma relação íntima, acolhê-l’O, saboreá-l’O e partilhá-l’O aos outros também.

2) Comunhão. Este é o maior milagre da Eucaristia: estar em comunhão com Deus e estar em comunhão com os irmãos. Só com Deus é comunhão da hóstia consagrada em vão. Só com os irmãos seria mera filantropia assistencial. Com Deus porque com os irmãos; com os irmãos porque com Deus. A comunhão é o ponto de chagada de uma conversão a Deus e o ponto de partida para a comunhão com os irmãos, dentro e a partir do Corpo místico de Cristo que é a Igreja. Participando na Eucaristia ─ como nos ajuda a compreender São Paulo com esta que a Igreja tem como a primeira comunicação escrita do que Jesus celebrou na Última Ceia ─ anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha. Esta é a melhor descrição da esperança que não nos desilude, sabendo que Ele não só morreu, como ressuscitou e virá novamente para plenificar a história da humanidade. No caminho da vida vamo-nos transformando n’Aquele que escutamos e comemos. Para sermos todos um só, como Ele pediu ao Pai antes de morrer.

3) Missão. Depois da celebração da Eucaristia, não ficamos indiferentes diante da realidade. Como os Apóstolos naquele episódio relatado pelo evangelho. Estamos no deserto, Senhor, para que esta multidão não morra aqui à fome… Mesmo que a nossa preocupação ainda não seja tudo. Já é bom preocuparmo-nos com as pessoas. Mas o Senhor permite-nos mais: que nos ocupemos delas, não as mandando embora. Encontrando uma solução juntos para elas. Dai-lhes vós de comer. Jesus testemunha-nos que não ama só as almas, mas também os corpos. Ele interessa-se também da justiça distributiva, ao mesmo tempo em que nutre as almas. As provocações de Jesus ajudam sempre a caminhar mais ao largo: ao encontro de soluções sempre mais realistas, quer dizer, dentro da realidade toda que Deus vê e que precisamos de ir buscar sempre a Ele, na obediência (ob-audire) e na sinodalidade. Hoje, a Igreja continua a mandar sentar por grupos, na catequese, nas celebrações, nas mesas das instituições, etc. Para continuarmos a distribuir dos cestos com os pedaços que sobraram. Como dizia um professor de sacramentologia: Eucaristia só há uma, com o sinal da cruz entramos e saímos dela. E assim se renova a vida da Igreja, no caminho que tem nas celebrações deste Sacramento uma divina “estação de serviço”. O Corpo de Deus não é só uma festa espiritual ou litúrgica. O pão que partimos, comungamos e partilhamos não é só para nós; se o fosse sentiríamos sempre cada vez mais fome. Este Pão do Céu, à medida que o distribuirmos aos outros, traduzido em boas ações, saciar-nos-á eternamente!

Ler mais:

  1. Somos pão
  2. Corpo e Spirito abbracciati