navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Gn 2,18-24; 1Jo 3,18-24; Mt 19,3-6, na celebração do Matrimónio

Esta é uma afirmação de Antoine de Saint-Exupéry, que viveu na primeira metade do séc. 20, de quem também conhecemos afirmações como “só se vê bem com o coração; o essencial é invisível aos olhos” e “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, do livro O Principezinho.

Estou cada vez mais convencido, durante estas quase três décadas dedicadas ao acompanhamento no itinerário vocacional de jovens que, apesar de lhes darmos muitos instrumentos nas dimensões humana, espiritual, intelectual e pastoral, o chamamento que está diante deles é muito maior do que a preparação toda que tiveram. Andamos metade da vida a aprender o que nos ensinam e o resto da vida a aprender a aprender coisas novas. Aprender a fazer e aprender a ser. O crescimento nunca acaba. E o que é que nos possibilita isso?

Em primeiro lugar: não ter medo. Afinal, é este o contrário do Amor, não o ódio. Depois, o caminho vocacional (para uns o presbiterado, para outros a vida religiosa, para outros o matrimónio e o novo lar): é uma plataforma elevada que nos eleva. E cada uma das leituras que escolhestes mostra-nos isso mesmo:

1) O Livro do Génesis mostra-nos como da solidão se pode crescer para a relação: encontrando uma auxiliar semelhante… O todo é superior às partes (cf. Evangelii Gaudium, nn. 234-237). A noiva e o noivo deste matrimónio são também mais do que soma deles: são um só, “assumir o compromisso de ser uma equipa comprometida” em Deus!

2) O Evangelho segundo Mateus (que escolhestes por estar muito associado à primeira leitura) mostra-nos como a unidade é superior ao conflito (já lembrava o Papa Francisco). Os fariseus queriam armar uma cilada a Jesus sobre a questão da união entre o homem e da mulher. Por vezes, há separações porque o coração dos seres humanos torna-se duro e acontece que o conflito passa a ser superior à união (cf. Evangelii Gaudium, nn. 226-230).

3) A Primeira Carta de S. João mostra-nos que de um amor só feito de palavras e com a língua se pode crescer para um amor em obras e em verdade. Radicalismo em factos. A realidade é mais importante que a ideia (cf. Evangelii Gaudium, nn. 231-233). A realidade observa-se concretamente, as ideias elaboram-se, mas podem evaporar e mudar repentinamente. Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas. Se Ele nos chama a seguir um caminho vocacional é porque Ele sabe que conseguiremos responder às exigências desse mesmo estado de vida.

Então, o que costumo dizer quando estou com padres em reflexão é o mesmo que vos digo a vós no contexto da vida matrimonial e familiar: crescemos e amadurecemos na medida em que pusermos em prática as exigências na nossa vocação pessoal. No caso do matrimónio: os valores que daqui a pouco, no rito, ireis declarar ser e estar (permanentemente livres e fecundos), assim como o consentimento (receber o outro, amá-lo e respeitá-lo…).