Para além de “Doutor Evangélico”, Santo António era chamado de “Arca do Testamento”, por saber de memória a Sagrada Escritura. A descrição da leitura do livro de Ben-Sirá assenta-lhe que nem uma luva, tal a luz da sabedoria que nele brilhava e que ainda brilha, pela devoção que se transmite a seu respeito de geração em geração.
António não foi só um professor de Teologia “contratado” por S. Francisco de Assis para os seus noviços. Nem foi só o “martelo dos hereges” para quem espalhasse desvios de doutrina. António foi, também, um grande agente de pastoral social, pois dizia: quem ama os pobres odeia a usura e aprecia o trabalho. E conta-se um episódio, entre a história e a lenda, que tem um grande valor pedagógico:
Na Toscana, decorria com pompa e circunstância o funeral de um senhor muito rico. Na cerimónia estava presente Santo António, o qual, movido por uma inspiração repentina, começou a gritar que aquele morto não devia ser enterrado num lugar sagrado (…) pois a sua alma estava condenada no inferno e, além do mais, aquele cadáver não tinha coração, conforme afirmou o Senhor no relato de Mateus: “Pois onde estiver o teu tesouro, ali estará também o teu coração” (Mt 6,21). Naturalmente, todos ficaram chocados com essa intimação e surgiu uma excitada troca de opiniões. Por fim, foram chamados uns cirurgiões, que abriram o peito do falecido. Mas não encontraram o coração que, segundo a previsão do santo, estava no cofre juntamente com o dinheiro aí guardado (…).
─ Polentone, Vita di S. Antonio
António acompanhou situações familiares de grande crise, entre endividamentos por causa de empréstimos com juros e hipotecas, suicídios e a viuvez. Pregando junto de todos o trabalho e o esforço como meios dignos de obter rendimentos, contra o poder dos mais fortes sobre os mais fracos. Ou seja: o dinheiro não se pode obter à custa das dívidas dos que nada têm. No capitulo IV da quinta parte (pp. 525-531) do seu romance histórico António Secreto, a força de um Santo, NICOLA VEGRO conta-nos pormenores sobre como o Santo, com a ajuda dos seus confrades, passou a “pente fino” todos os documentos e anotações trazido por uma viúva de um tal “Tonin” endividado. Ocasião para António confrontar a usura dos empréstimos e respetivos juros naquele tempo com a forma como o Evangelho aconselha a lidar com os pobres. Nesta atitude, vemos António a configurar-se com Jesus, que não deixa escapar a “mais pequenina letra” para que se cumpra a justiça em favor dos pobres.
A doutrina social da Igreja levanta a sua voz que se expandiu largamente com o Papa Francisco, para que se pratique a economia de comunhão, melhor do que a economia solidária. Esta, apesar de resolver a emergência, precisa de que haja sempre pobres para que os mais fortes os beneficiem continuamente. Na prática: dá-se-lhes o peixe, mas não se-lhes ensina a pescar. Mais evangélico é “dar a cana para que se aprenda a pescar” (dar emprego), próprio da economia de comunhão, que para além de ajudar na emergência, também ajuda a estabilizar a vida a longo prazo. Porque não há só pobreza de dinheiro, mas também de saúde, cultura e valores.
Foi a partir da sensibilidade de S. Francisco de Assis, e fruto da palavra e da ação de Santo António que, ali pelo séc. XV, nasceram as primeiras formas de banca ética e sem fins lucrativos, nascidos para combater a usura.
Que a celebração desta festa nos ajude a todos a construir um mundo mais justo e fraterno, com o patrocínio de Santo António. O Senhor Jesus, no evangelho, chama-nos a ser sal e luz, precisamente para colaborarmos na missão de completar, quer dizer, para que a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal se cumpram na vida. Quem pratica e ensina a verdade será grande no Reino dos Céus. É neste Reino que somos chamados a colocar os nossos corações!
