navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 2, 1-11; Sl 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34 L 2 1Cor 12, 3b-7. 12-13 ou (própria do Ano C): Rm 8, 8-17 Ev Jo 20, 19-23 ou (própria do Ano C): Jo 14, 15-16. 23a-26 ─ Domingo de Pentecostes

Há pouco tempo li (no livro Ama-te como Deus te ama, de JESÚS MARÍA CASTIGNANI, p.243) sobre um “testemunho de um seminarista estrangeiro em cujo país se perseguia a Igreja”, que veio para a Espanha para se poder formar como sacerdote. Contou que o que mais lhe custou foi aprender uma nova língua, uma vez que a sua língua materna tinha uma base muito diversa das línguas ocidentais. Quando, por fim, aprendeu o espanhol, encontrou-se com uma frase que no seu idioma não se podia dizer, nem se podia exprimir, uma frase intraduzível. Nunca poderia compreender o conteúdo daquela frase se não tivesse estudado outro idioma e, igualmente, nunca poderia pensar nessa ideia ou tomar consciência dela. Quando compreendeu o significado daquela frase, teve um encontro com Deus como nunca tinha tido, e compreendeu algo sobre Ele que nunca pudera conceptualizar, e começou a chorar como uma criança. A frase era:

Deus ama-te tal como és.

Como explica a filosofia, muitas vezes não é a linguagem que segue a ideia, mas a ideia é que segue a linguagem, porque há conceitos abstratos que não se podem pensar até que não se designem as palavras adequadas para poder pensá-los (nota do autor do livro acima referido).

Hoje celebramos a Solenidade do Pentecostes, que abre a possibilidade a que toda a humanidade possa vir a perceber a linguagem do Amor de Deus e acolhê-lo na Pessoa do Espírito Santo. Este Amor de Deus é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade que é o Espírito Santo! De facto, nos Atos dos Apóstolos ouvimos que “cheios do Espírito Santo (quer dizer, cheios do Amor de Deus), começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem”. E quem os ouvia, provenientes de variadíssimas nações, ouvia-os proclamar nas suas próprias línguas as maravilhas de Deus.

De facto, como nos relata o Evangelho ─ que é ou quer dizer “Boa Notícia” ─, quando Jesus se encontra com os seus discípulos o medo dá lugar à paz. A paz de Deus é um outro nome do amor que é o Espírito Santo (e não só símbolo!), que se traduz em mensagem de amor e de perdão. Uma vida vivida dentro do medo, por causa de todo o tipo de perseguições e de guerras, só mesmo com a perceção ou reconhecimento e acolhimento deste amor que dá paz em qualquer circunstâncias nos poderá levar a dizer, como São Paulo indica, que Jesus é o Senhor e, mais, entregar-Lhe as nossas vidas em serviço através de vários tipos de dons e carismas, traduzidos em vocações ou missões que levem a toda a humanidade, sem distinções, com palavras de verdade e gestos significativos. Para que a ninguém, no meio das provações da vida, falte este anúncio.

Li também dois testemunhos que me deixaram a pensar na Igreja que somos, chamada a ser esta comunidade do Pentecostes: um é do jornalista João Miguel Tavares, que diz “Nós temos na nossa mão a mais incrível história alguma vez contada… E tenho imensas dificuldades em saber porque é tão difícil partilhá-la”, incentivando a outras formas de falar de Deus para que outros, fora da Igreja, o possam descobrir o seu Amor. Outro testemunho é do constitucionalista Jorge Bacelar Gouveia, que afirmou recentemente sentir que “há uma certa contenção, há uma certa inibição do discurso das Igrejas, em particular da Igreja Católica, acho que se devia sentir mais no espaço público”, sugerindo um discurso religioso que, se existe, “não é ouvido pela opinião pública, o que é mau, ou então ele não existe com a força e com a habilidade que devia ter”; e também sugerindo que a Igreja tenha mais intervenção social que pode começar com uma (re)evangelização da opinião pública; para que a religião não sirva, como por vezes acontece, para polarizar e instrumentalizar, mas para unir a todos no caminho do bem comum.

O Espírito Santo que o Senhor nos envia é o Espírito do amor e da liberdade dos filhos de Deus, ─ e não de recintos ou grupinhos fechados ─ para que não possam viver amedrontados, mas capazes de sair ao mundo, anunciando o Reino da justiça e da paz. Para isso é preciso derrubar ou abrir algumas portas, com o auxílio do Espírito Santo. Quais? Peço ajuda, cintando na íntegra, ao Padre Ermes Ronchi, que no-las sugere assim:

1) A primeira porta a derrubar é a de uma casa onde não há ar. A primeira Igreja, exausta e assustada, com um primeiro grupo, dececionado e barricado em casa, precisa que Deus entre lá para os virar do avesso para serem capazes de enfrentar a “cidade (Jerusalém) que mata os profetas”. Eles aparecem na rua como ébrios, exagerados, porque o cristianismo não se difunde por doutrinas ou proibições, mas pela entrega amorosa e contagiante da paixão por Deus e pelo homem.

2) A segunda porta abre-se com o salmo entre as leituras, com o seu registo majestoso, uma melodia que navega e paira sobre o mundo: a terra está cheia do teu Espírito, Senhor (Sl 103). A terra inteira, nenhuma criatura excluída, está cheia d’Ele. Mesmo que não seja evidente, mesmo que permaneça inchada de sangue, de loucura, de guerras por todo o lado.

3) A terceira porta do Espírito abre-se a cem outras: Paulo fala de uma chama de fogo que se divide e que, tal como a música, preenche e une vidas diferentes, abençoa o génio e a singularidade de cada um, pede discípulos criativos que não repitam as palavras dos outros: livres, leves e claros. Na grande Catedral que Deus está a construir com o nosso povo, cada um de nós é uma pedra insubstituível (P. Vannucci). Qual é a obra do Espírito? A obra que Ele realizou com Marcos, Mateus, Lucas e João: Ele gera evangelistas. Cada um de nós é um, com o seu próprio evangelho para proclamar. E ninguém nos pode substituir ali mesmo, onde Deus nos colocou.

4) A quarta porta é aberta pelo Evangelho: o Espírito guiar-vos-á para toda a verdade. É a humildade de Jesus, que não afirma ter dito tudo, mas fala-nos com verbos todos voltados para o futuro: o Espírito virá, anunciará, guiará, falará. Recordará coisas antigas e descobrirá coisas novas. Ele, o inventor supremo. E rezar-Lhe é olhar para a varanda do futuro, onde a verdade, sempre incompleta, cresce e amadurece. O Espírito realiza em nós a mesma obra realizada em Santa Maria: encarna em mim o Verbo, faz com que cresça, faz de nós todas mães de Deus. Portanto, nada de católicos deprimidos! Porque ao meu pequeno barco nunca faltará vento. Nenhuma ansiedade quanto ao percurso, porque um Vento livre e libertador sopra sobre nós. E Ele faz com que todos sejamos abanados pelo seu Vento. Porque o Evangelho não está acabado, é infinito e cresce com quem o lê (Gregório Magno). Cresce convosco. Vós sois a sua mãe. (Eu acrescentaria: não é que vamos acrescentar nenhuma novidade ao Evangelho quanto ao que há para dizer, mas na forma como se pode traduzir, em palavras e gestos criativos.)