L 1 At 16, 11-15; Sl 149, 1-2. 3-4. 5-6a e 9b Ev Jo 15, 26 – 16, 4a, na memória de S. Filipe de Néri
Quem viu o filme Inception (em português “A Origem”), realizado por Christopher Nolan em 2010, reparou que os protagonistas usavam um “totem” para confirmarem se estavam na vida real ou em sonho. Leonardo DiCaprio é um dos protagonistas, um ladrão especializado em extrair informações do inconsciente dos seus alvos durante o sonho, contratado para fazer a inserção, plantar a origem de uma ideia na mente de um rival do seu cliente. Este protagonista usava como totem um pequeno pião que tinha pertencido à sua mulher, que se tinha suicidado. Se o pião nunca terminasse de rodar, estaria no sonho; se ele parasse como é previsto na realidade, estaria acordado. Porém, segundo alguns analistas deste filme, o melhor “totem” deste protagonista era o rosto dos seus filhos, que no sonho nunca conseguia ver e, no final, como prémio, conseguir ver na realidade e abraçar.
No evangelho de hoje, Jesus, por razões não fictícias, parece implantar no coração dos seus discípulos uma afirmação que lhes possibilitará a capacidade de enfrentar a realidade, por vezes dura, pela qual hão de passar: «disse-vos isto, para que, ao chegar a hora, vos lembreis de que vo-lo tinha dito». Esta afirmação implanta neles o “totem” cristão por excelência, aquele “isto” que é: a fonte de consolação que é o Espírito da Paz, mensagem de consolação no meio da tribulação. A certeza de que nunca estarão abandonados.
D. Joércio Pereira, um dos bispos eméritos do Brasil, afirmou há pouco tempo no Santuário de Aparecida que “quem se alimenta da Palavra e da Eucaristia nunca desanima!”. De facto, Jesus é a força de que precisamos para seguir em frente, não obstante as dificuldades e obstáculos do caminho. Enfrentamo-los de cabeças erguidas, pois sabemos que Ele está connosco com o seu Espírito Santo. Não vivemos a aproximação à Palavra e a celebração dos Sacramentos como quem foge do mundo, mas como quem se “abastece” de coragem para enfrentar os desafios do dia-a-dia da missão. De maneira que a vida e a missão se tornam uma coisa só, e não tenha hiatos, nem fugas.
Num mundo onde se mistura o real e o virtual, onde alguns “donos” parecem deixar que “bots” informáticos sejam verdadeiras armas e “feeds” das redes sociais autênticos “coliseus” onde se origina, em parte, a atual guerra “aos pedaços”, permeada por verdadeiros genocídios, os discípulos-missionários de Jesus são chamados a estar presentes à maneira do seu Mestre e, na sua forma fiel de viver, a ser “prompts” (inputs) ─ sementes! ─ de fraternidade, de justiça e de paz, semeando com palavras e gestos a Boa Nova da Paz. É o que tem vindo a fazer, também, o nosso atual Papa Leão XIV: como mediador de Paz.
O ambiente sobrenatural para confirmarmos se no sonho que estamos a viver estamos a ser lúcidos é a oração. É aqui que procuramos iluminar a aproximação à realidade ao mesmo tempo em que aprofundamos o mistério cristão que se nos revela com a força do Espírito Santo. Foi com o propósito da oração que, em Roma, no ano de 1575, o Papa Paulo V ratificou a sociedade de vida apostólica chamada Congregação do Oratório, fundada por S. Filipe de Néri. A oração é, para eles como para nós, o canal sempre aberto para alavancarmos a eficiência apostólica que nos é possibilitada por Jesus Cristo no meio do mundo. No meio do ruído, das tarefas, dos encontros, das palavras, a oração é um lugar onde o tempo abranda e a voz de Deus não seja abafada pelo barulho do mundo, um coração desacelerado da pressa que nos possibilite ser apenas de Deus.
Hoje, rezo:
• para que a diplomacia profética seja mesmo a maior força da Santa Sé, ajudando a clarificar a realidade no diálogo, ao mesmo tempo em que procura expor uma profunda compreensão do mistério de Cristo, em favor da paz entre as nações;
• por aquela médica pediatra palestiniana que perdeu os seus nove filhos e tem o seu marido gravemente ferido, em Gaza, para que como a Lídia, o Espírito Consolador lhe abra o coração, para que possa “hospedar” a Palavra de Deus que tudo é capaz de esperançar.
