navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 15, 1-2. 22-29; Sl 66 (67), 2-3. 5. 6 e 8 L 2 Ap 21, 10-14. 22-23 ou Ap 22, 12-14. 16-17. 20 Ev Jo 14, 23-29 ou Jo 17, 20-26, no VI Domingo da Páscoa (C). Reflexão inspirada na homilia do Pe. Ermes Ronchi.

Estamos a viver o tempo pascal quase a chegar ao seu ponto culminante que é o Pentecostes, o acontecimento que nos ajuda a viver como destemida «Igreja em saída» como nos exortou o Papa Francisco. Esta Igreja é a que não tem medo nem vergonha de estar no mundo, dando testemunho da fé, esperança e caridade. No século II, numa famosa “Carta a Diogneto” que “os cristãos não se distinguem dos outros” em muitas coisas, “obedecem às leis estabelecidas, mas pelo seu modo de vida superam as leis. Amam toda a gente e toda a gente os persegue”.

Para que o envio do Espírito Santo aconteça, precisamos de deixar Jesus subir aos Céus, para que possa estar entre nós com uma nova presença. Para que, inspirada n’Ele, a Igreja também possa estar no mundo para fazer a diferença.

O evangelho de hoje traz-nos três palavras que nos podem ajudar a caminhar para ser Igreja no mundo como artesã da paz. Descrevo estas três expressões como etapas da construção da nossa identidade de cristãos e da nosso cooperação no acolhimento e testemunho da paz:

1) Ser morada de Deus. Jesus já tinha afirmado que no Céu havia muitas moradas e que nos iria preparar um lugar (cf. Jo 14,2). Agora, afirma-nos que Deus também quer morar em nós! Como podemos ser “morada” de Deus? Ouvindo a sua Palavra e guardando-a, quer dizer, colocando-a em prática. Esta é a melhor forma de a guardar-mos: é registá-la na vida concreta, ou seja, reescrever a Palavra com as boas obras. As palavras leva-as o vento; as boas ações deixam rasto. (O tema da “inabitação” de Deus na alma humana sempre me entusiasmou; é um tema muito especial da mística cristã, acessível a todos, porque manifestação da vontade de Deus.) Mas não é fácil sempre considerá-lo, também porque se pensa que isso é só para algumas pessoas. Na verdade, é uma possibilidade à beira do caminho de todos: ouvir a Palavra de Deus e pô-la em prática. Mas pode alguém desabafar que o trabalho e as preocupações não lhe dão tempo para isso ou que a sua vida é uma miséria. O mesmo disseram os jovens na vigília de oração na JMJ do Rio de Janeiro ao Papa Francisco, e ele respondeu-lhes: arranja no teu coração um pequeno canteiro, semeia aí uma frase da Palavra de Deus e rega-a todos os dias; e vais ver como germina; mas não regues o joio que aí aparecer, mas o trigo que é essa Palavra!

2) A promessa do Espírito Santo. Jesus promete-nos a vinda do Paráclito, que quer dizer “Consolador” que nos ensinará todas as coisas e nos recordará tudo o que Ele nos disse. Quer dizer que nunca estamos sozinhos! O Espírito Santo não é uma reserva de uns poucos eleitos, mas uma dádiva de dons de amor e inspiração como que em “cascata”, para todos. O prefácio VII do tempo comum (p. 490) faz-nos rezar mesmo: destes ao mundo o vosso Espírito, para fazer de todas as nações um só povo, que caminha para o vosso reino na liberdade dos filhos de Deus, segundo o mandamento novo do amor. Todos nós temos o Espírito Santo tanto quanto precisamos de florir, de criar, de ser doadores de vida. O Espírito faz-nos viver um cristianismo que não seja uma mera “religião”, quer dizer, um mero cumprimento de leis, mas que seja visão do Deus amor que vem ao encontro de cada ser humano, como encantamento, fervor, ímpeto para uma vida melhor. O episódio que nos é relatado na leitura dos Atos dos Apóstolos evidencia-nos muito bem isso.

3) A Paz. A Paz é a primeira palavra que Jesus diz aos seus discípulos após a Ressurreição. A Paz é mesmo o primeiro e o maior fruto da Ressurreição de Jesus. Foi por isso que em tempo pascal, essas também foram as primeiras palavras do nosso novo Papa Leão XIV na varanda da Basílica de São Pedro no Vaticano:

A paz esteja com todos vós! Caríssimos irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação de Cristo Ressuscitado, o Bom Pastor, que deu a vida pelo rebanho de Deus. Também eu gostaria que esta saudação de paz entrasse no vosso coração, chegasse às vossas famílias, a todas as pessoas, onde quer que se encontrem, a todos os povos, a toda a terra. A paz esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente.

Sobre a paz, Jesus deixa-nos algumas certezas:

• O seu desejo já foi vertido nos nossos corações como dádiva sua;
• Não se compra nem se vende;
• É um dom que se torna conquista através de um artesanato paciente, feito com a mente, o coração, as mãos e os pés;
• É feita com os verbos: dar, descer, servir, em contracorrente aos malditos verbos possuir, envaidecer-se, dominar.

Que todos nós possamos sentir-nos ora protegidos sob as asas do Espírito Santo, ora a voar sobre as suas asas, para fora dos nossos espaços de segurança e ao encontro dos que precisam da Paz de Deus.