L 1 At 13, 26-33; Sl 2, 6-7. 8-9. 10-11 Ev Jo 14, 1-6
Continuamos a contemplar no evangelho o testamento espiritual e pastoral que “sobra” da última ceia e que Jesus manda guardar nos corações-“cestos” para animarem a pastoral dos discípulos após a partida do Mestre. Uma das coisas que mais admiro em Jesus é o facto de Ele saber que tipo de entrega vai realizar no auge da Cruz gloriosa e, não obstante o sofrimento que isso implicou, mesmo assim sonhar em grande, “arquiteturando” a ponte indestrutível para o que está para além do sofrimento da Cruz, propondo desde já aos seus discípulos que “habitem” desde já um ideal ultramundano.
Para a viagem entre a margem (ou face) sofredora da entrega até à margem (ou face) gloriosa, requer-se esse alimento-espiritual-testamento que é guardado, digerido e partilhado a partir dos nossos corações. É este legado que não nos deixa sucumbir no meio de tribulações e que ajuda os nossos corações a não oferecer resistências ao bem que é anunciado, mas ao mal que nos afasta do caminho.
No dia em que estávamos a celebrar o 13 de maio, faleceu o famoso “político mais pobre do mundo”, “Pepe” Mujica, que, não obstante alguns posicionamentos políticos duvidosos, foi um homem que viveu para os outros, sentia-se um “acólito” do Papa Francisco, e viva num estilo simples, humilde e pobre, próprio de quem sabe que a terra, que ele gostava de cultivar como agricultor, não é a última morada, mas um lugar onde é preciso ser livre das coisas e de honras mundanas, para servir o bem comum. Assim, do testamento da vida de exemplos públicos podemos colher as lições em que pesa o essencial. Ele faz parte daquele grupo de pessoas que declaram admirar o bem que está na Igreja, não obstante a maldade praticada por alguns dos seus membros, para nos juntarmos a esta maravilhosa viagem até ao Pai, conduzidos aos ombros do Bom Pastor.
A palavra dos profetas, conforme as comemora Paulo, contém quer a denúncia do mal que os homens vieram a fazer a Jesus, quer a promessa que Deus cumpriu ao ressuscitar Jesus de entre os mortos. De modo que também nós podemos dizer que os acontecimentos de hoje estão narrados na Sagrada Escritura, para não andarmos à busca de descrições iluminadas por outra fonte de luz que não seja a do mistério pascal. Somos chamados a ser profetas, denunciando o mal e anunciando as promessas de Deus, como os apóstolos. É assim que o mistério pascal continua a ser para nós síntese e vértice ─ diria, também, num movimento em “vórtice” ─ para onde caminha toda a história da salvação. O mistério pascal não é um acontecimento estático, mas uma realidade salvífica dinâmica que nos envolve e implica.
Que o ato de direito e de dever que vamos praticar nas eleições do próximo domingo seja mais um passo favorável a este misterioso movimento da Páscoa que integra todos os elementos cósmicos, quanto mais os que se referem à vida humana, na esperança de que, como Jesus disse a Pilatos, se exerça o poder como um dom que vem do alto para o serviço da vida humana.

