navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 1, 15-17. 20-26; Sl 112 (113), 1-2. 3-4. 5-6. 7-8 Ev Jo 15, 9-17, na Festa de São Matias, Apóstolo

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Escutar a tripla repetição do verbo “permanecer” e do substantivo “amor” no evangelho de hoje pode fazer-nos antecipar (como que por uma prolepse) o que proclamamos em Jo 21,15-22, onde ressoam após a Ressurreição de Jesus aquela tríplice interrogação e declaração de amor e de amizade entre Jesus e Pedro («Pedro, tu amas-Me mais do que estes?»; «Pedro, tu amas-Me?»; e «Pedro, és meu amigo?» ─ na nova tradução). A contemplação deste paralelo permite-nos deixar de ligar aquela tríplice declaração de amor meramente à tríplice negação de Pedro, antes da crucifixão e morte de Jesus na Cruz, mas também e sobretudo à dimensão da amizade que liga estas duas passagens do evangelho segundo João.

Outro sinal curioso é que Jesus diz “já não vos chamo servos mas amigos” e em Jo 21 o Ressuscitado volta a colocar uma ponte entre a amizade e o serviço, uma vez que Ele desce à condição de Pedro, perguntando se é seu amigo. Talvez a tristeza que Pedro sente naquele que poderíamos chamar um novo “banho de imersão” num amor kenótico (que se manifesta através da entrega, da renúncia e do esvaziamento), venha do facto de Jesus chamá-lo desde a amizade ao serviço pelos seus irmãos, até ao ponto de dar a vida por eles. Em Jo 15 Jesus declara já não vos chamo servos, mas amigos, e em Jo 21 volta a chamar Pedro da amizade ao serviço. Talvez este convite fosse sentido por Pedro como uma recordação da sua incapacidade de permanecer no amor e de ter que recuperar essa perda pelo serviço. Interessante é que podemos ver na relação entre estas duas passagens um convite à recuperação da amizade com Cristo e não só uma descida de Cristo à amizade autêntica de Pedro, já sem as euforias triunfalistas do caminho para o calvário (na esperança de uma reviravolta política no processo de Jesus).

É bom, também, considerarmos que o que levou Pedro a demitir-se da amizade com Jesus, antes que a sua tripla negação (relatada em Mt 26,69-75; Mc 14,66-72; Lc 22,54-62), foi a sua afirmação: «Ainda que todos caiam em escândalo por causa de ti, eu nunca cairei em escândalo» (Mt 26,33), «Ainda que todos caiam em escândalo, eu não» (Mc 14,29) ou «Senhor, estou preparado para ir contigo para a prisão e para a morte» (Lc 22,33). Nestas afirmações vemos o Pedro com um amor abstrato/hipócrita, nas negações vemos o Pedro verdadeiro, cheio de medo de permanecer no amor de Jesus.

Como no episódio em que Jesus caminha sobre as águas (Mc 14,22-33) ─ em que o Pedro verdadeiro não é o que se envaidece ao dizer ao Senhor «Senhor, se és Tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas», mas o que suplica «Senhor, salva-me» ─, assim também nos textos que hoje ponho em comparação o Pedro verdadeiro é o que teme e diz sentir realmente amizade pelo Senhor (e não o Pedro que se envaidece ao dizer que nunca cairá em escândalo ou que terá coragem em ir preso juntamente com o Mestre).

Esta concentração da atenção no Apóstolo Pedro não foi para a desviar do Apóstolo que hoje se comemora na Liturgia ─ Matias ─, mas para nos darmos conta de que se confirma na eleição deste a obediência consistente de Pedro ao Ressuscitado, de apascentar as suas ovelhas, em todas as circunstâncias, nomeadamente nas relatadas no primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos. A eleição de Matias é uma prova da fidelidade de Pedro a Cristo, na resposta à necessidade e na forma como o faz. Permanecer no amor de Deus em Cristo é escutar o que diz o Espírito Santo em favor dos irmãos na Igreja. Esta é a melhor síntese da amizade para com Deus que se desenvolve no serviço aos irmãos.

É Cristo que escolhe os seus servidores, porque conhece, antes e melhor que eles, os seus corações e sabe a docilidade ao seu Espírito que existe neles para os poder participar na sua missão. A eleição de Matias, assim como a eleição de Leão XIV, decorre da fidelidade partilhada entre os apóstolos dos quais Pedro tem o primado. Entretanto, como afirma São João Crisóstomo na sua homilia, Pedro poderia ter escolhido sozinho entre Matias e Barsabás, mas absteve-se para não dar lugar a favoritismos, uma vez que Barsabás tinha mais títulos (José, o Justo). Pedro preferiu invocar a sabedoria de Deus que conhece o coração dos homens e consultar a opinião de todos, para que o escolhido fosse recebido com agrado. Talvez isto aconteça já e devesse acontecer ainda mais a outros níveis da Igreja, onde muitas vezes se dá preferência às competências humanas mais que à santidade que os candidatos participam de Deus. É nos meandros comunitários desta santidade que decorre o conhecimento da Ressurreição e o encontro com o Ressuscitado, ponto de partida para a missão.