Ainda ontem, por ocasião da Admissão de um dos seus seminaristas entre os candidatos às Ordens sacras, ouvíamos D. António Couto a apresentar uma das chaves de interpretação da Sagrada Escritura, dizendo que “a fonética com que está escrita a Palavra faz barulho, mas o sentido que está escondido nela não faz barulho, e é este sentido profundo que temos de perscrutar”. No Evangelho escolhido para a Festa de Nossa Senhora de Fátima contemplamos algo semelhante: o contraste entre a voz que interrompeu Jesus no meio da multidão faz barulho, ainda que para elogiar a Mãe de Jesus, e, mais importante, a resposta silenciosa ao imperativo lançado por Jesus de escutarmos a Palavra de Deus e a pormos em prática.
Aquela mulher que interrompe Jesus fala ao estilo do Antigo Testamento, que dava muito valor às caraterísticas biológicas de uma mãe, sobretudo aquela que gera filhos ao marido. Nas palavras de Jesus, a bem-aventurança de Maria consiste mais no facto de Ela ter escutado o sentir de Deus e de viver no mistério da graça e de exigência na cooperação do projeto salvífico de Deus. Se não fosse assim, haveria uma contradição entre a bem-aventurança de Maria e as outras bem-aventuranças declaradas por Jesus no sermão da montanha. Portanto, a mulher não se reduz à biologia; o seu sinal é mais do que um ventre e uns peitos. A mulher é, sobretudo, uma pessoa que, à semelhança da bem-aventurança do homem, é chamada a viver o dom da graça de Deus e traduzi-lo numa determinada forma de comportamento.
Por isso, a resposta àquele imperativo ditado por Jesus condiz plenamente com Maria. No Prefácio que rezamos nesta celebração eucarística ─ Maria, imagem e mãe da Igreja ─ vemos o desenrolar silencioso do plano salvífico de Deus através de Maria, feito mais de ações divinas silenciosas do que de palavras humanas eufóricas. O trecho do Apocalipse de João ajuda-nos a aprofundar aquela relação íntima entre Maria e a Igreja, mostrando-nos que face ao monstro do poder, no dar à luz a presença de Cristo, as duas vivem mais a resistência cristã diante do mal do que uma revolução confessional. Por isso, a Igreja corre o risco de se prostituir quando se deixa violar pelo poder. Mas é figura de Maria quando se assume como espaço de escuta e de realização da Palavra de Deus.
No seu encontro jubilar com os jornalistas, o Papa Leão XIV falou da bem-aventurança da comunicação como um serviço à verdade, através do “compromisso de levar adiante uma forma de comunicação diferente, que não busque o consenso a todo custo, não se revista de palavras agressivas, não abrace o modelo da competição, não separe nunca a busca da verdade do amor com que devemos humildemente buscá-la”.
A Igreja reconhece nestas testemunhas, penso naqueles que relatam a guerra mesmo à custa da própria vida, a coragem de quem defende a dignidade, a justiça e o direito dos povos à informação, porque só os povos informados podem fazer escolhas livres. O sofrimento destes jornalistas presos interpela a consciência das Nações e da Comunidade internacional, chamando-nos a todos a salvaguardar o bem precioso da liberdade de expressão e de imprensa.
Também prece ter sido esta a missão dos Três Pastorinhos, enfrentando diversas dificuldades para transmitir a mensagem de Nossa Senhora, incluindo a desconfiança das autoridades civis e religiosas, a oposição de alguns membros da família, e o medo e perseguição que sofreram. O apelo à paz que hoje se faz urgente é uma réplica do mesmo apelo que se fez à volta da primeira grande guerra mundial. A paz verdadeira, como cremos, é um fruto da Páscoa de Cristo Morto e Ressuscitado. Colaborar com o acolhimento desta paz vinda do alto dependerá do modo como interagimos na fidelidade a Deus e na fidelidade aos destinatários da sua boa nova. Nas políticas sociais e nas pastorais da Igreja precisamos de baixar o volume sonoro das “bandeiras” setoriais e de nos envolvermos, respetivamente, em mesmo projetos pelo bem comum e por uma vida cristã que que seja reflexo da santidade de Deus. (A este respeito ouça-se o Fórum TSF de 13 de maio de 2025 e o n.º 141 do Documento final do “Sínodo dos Jovens”.)
Deixemos falar Jesus: “eis aí a tua Mãe”. Como lembrou hoje o Cardeal Jaime Spengler em Fátima, Ela foi a primeira que escutou a primeira a pôr-se à disposição. A maternidade de Maria, antes de se realizar no ventre, aconteceu no ouvido e no coração. O ouvido é o princípio da escuta, o coração é o princípio do crescimento. Ela continua a gerar o seu Filho até à morte. Para nós, Ela continua a ajudar-nos a gerar Cristo nas e a partir das nossas vidas, convidando-nos a seguir Jesus e, vendo como Ele se comporta, a pormos os nossos pés nas suas pegadas. Num tempo e numa sociedade marcada por diversos tipos de medo, Maria continua a dizer-nos para não termos medo. Ensina-nos a esperança que não é um tipo de otimismo, mas o próprio Jesus Cristo. A devoção a Maria não é um capricho religioso, mas uma obrigação de batizados, de filhos. Todos nós precisamos de um coração de mãe, de perceber a ternura de Deus e perscrutar as palpitações de todos os seres humanos. Peçamos a Deus, por Ela, a graça de termos um coração novo, sem autoritarismos ou fundamentalismos que se alimentam do medo das pessoas, para que pela escuta da Palavra possamos viver como homens novos, abertos a viver a solidariedade para com Deus e com os outros.
