navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 7, 51 – 8, 1a; Sl 30 (31), 3cd-4. 6ab e 7b e 8a. 17 e 21ab Ev Jo 6, 30-35, homilia também proferida no contexto de um funeral.

Aquilo que ontem parecia o veredicto de um seguimento inútil ─ por curiosidade, comodidade ou egoísmo ─ hoje vem a manifestar-se útil, uma vez que quem não se desliga de Cristo acaba por se pôr a jeito de um processo de conversão.

Cada um de nós foi trazido à vida para que Deus realizasse uma obra a partir de nós. Para isso, o caminho da vida é necessariamente um caminho de busca pessoal que, dentro de determinadas condições, se transforma num processo de fé, em que Deus preparou tudo para que inclua o acolhimento do alimento que perdura para a vida eterna ─ Jesus Palavra viva e Pão vivo.

Segundo o canossiano Amedeo Cencini, na verdade não já descrentes, porque todo o ser humano acredita em alguém ou alguma coisa. A questão de fundo é se se acredita n’Aquele que vale a pena ou nos valores que ajudam a construir o sentido verdadeiro da vida.

Por outro lado, faz parte do acreditar no deus de Jesus Cristo, acreditar também que Deus aproveita tudo para atrair os seres humanos a si:

1) O esforço nas privações que os atletas ou as modelos fazem para conquistar um troféu ou a sua imagem nas capas das melhores revistas (o que chamaríamos sair de si por motivos egocêntricos);

2) A boa vontade que os voluntários manifestam ao dar tempo e inteligência para organizar obras de solidariedade em favor dos que mais precisam (o que chamaríamos de sair de si por motivos filantrópico-sociais);

3) E a loucura que alguém manifesta na capacidade de dar a vida pelos outros sem se lembrar mais de si, por vezes, até ao sangue (o que chamaríamos de sair de si por motivos teocêntricos).

Em todas estas manifestações à uma deslocação centrífuga (fugir do centro) do ego, verificada em todas aquelas pessoas que se querem superar por valores maiores e comparando todos os dias as versões de si próprias, o que é saudável. Já não é tão saudável a comparação entre pessoas, o que considero demoníaco.

Ao longo da história, Deus serviu-se de qualidades humanas diversíssimas para incarnar os seus desígnios de amor que são infinitos e insondáveis. Lembremo-nos do zelo de Saulo, anterior à conversão. O que faltava era de mudar o seu coração, colocando no centro Deus como Ele é e não como Saulo o “pintava”. Para passar a dar a sua vida e não tirar a vida dos outros. Estêvão foi um exemplo admirável do poder que Deus pode exercer na vida de quem acredita.

Vimos no passo evangélico de ontem que a obra da fé que Deus quer certificar em nós é mais importante que as obras que fazemos ao longo dos nossos dias. Estas são necessárias, mas não as mais importantes. No final, uma só coisa conta: o amor com que nos entregámos. Este amor será reflexo do Espírito Paráclito que Deus depositou em cada um de nós.

Afinal o maior milagres que Deus realiza é a possibilidade de cada pessoa sair de si própria para ir ao Seu encontro. Jesus também saiu de Deus para vir ser Pão de vida eterna para a humanidade.

Então, por entre as muitas coisas que possamos fazer a propósito da profissão ou da vocação de consagração, a faísca que acende em nós a luz de Deus é acreditar n’Aquele que Ele enviou, o protótipo do ser humano bem conseguido. Por isso, não podemos ter como afã de na vida ser cópias de alguém, mas reflexo da luz de Deus, que está em Cristo Jesus, e cuja magnitude é insondável. Só unidos por dentro e com os irmãos é que conseguiremos ser “obra de Deus”.