navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 5, 34-42; Sl 26 (27), 1. 4. 13-14 Ev Jo 6, 1-15, na memória de Santo Atanásio

Jesus partiu muitas vezes para o outro lado do mar da Galileia. Os discípulos iam com Ele e a multidão perseguia-O. Jesus teria um pretexto programático; não era vontade de ir de férias. A expressão “para o outro lado do mar” sabe a atração escatológica e, ao mesmo tempo, confere ao seguimento um movimento de transformação que obriga a sair de onde se está para se adquirir um ponto de vista mais amplo da vida. E ainda que Jesus não tenha sempre ido para o outro lado do mar todos os dias, pelo menos o que lá aconteceu foi deveras importante como prefiguração do que seria a Sua entrega no “lado” que consiste a Igreja como comunidade convocada para o em tensão para o Reino de Deus.

Conforme João nos conta, naquele lugar também havia um monte. Dá a impressão que para onde quer que Jesus rumasse na sua programação pastoral, a logística deveria conter um monte. É que o seu Magistério principia sempre com a oração ao Pai. E, desta vez, a pregação foi ação imediata ao olhar em favor daquela multidão faminta. Assim também será, frequentes vezes, pela graça do Espírito Santo, na ação pastoral do padre: muitas ações de resposta a necessidades essenciais das comunidades precederão e darão credibilidade a pregações sucessivas. Contrariando e parafraseando o ditado “ouve o que ele diz, mas não olhes para o que ele faz”, será mais “olha para o que ele faz e compreenderás o sentido do que ele diz”.

Jesus provoca a atividade daquele dia com uma lição de pedagogia pastoral, provocando uma experimentação entre a mentalidade dos discípulos e a forma como Deus interage com a nossa realidade e as nossas circunstâncias. Jesus quis partir da forma como os discípulos costumam gerir as coisas, para os implicar desde o início, a partir da forma como eles conjugam problemas e soluções.

Filipe começa por averiguar se há solução a partir da área em que se sente mais à vontade: “duzentos denários de pão não chegam…”. Parte da lógica economicista. Útil, mas que não chega para se fazer pastoral. Ainda não se deu conta que é preciso contar com outra lógica que é teo-lógica (teologia pastoral).

André, por seu lado, está mais atento aos recursos humanos, move-se melhor da área antropológica, a de quem pode ajudar e sobre o que a pessoa pode partilhar, ainda que precário.

Um dia, numas jornadas de gestão no Centro Regional de Viseu da UCP, foi dito por um empresário experiente que uma empresa teria de ter tipos de pessoas a fazer trabalho de equipa, para que a empresa tivesse sucesso. Referia que, às vezes, as qualidades dessas três pessoas podem estar numa mesma pessoa, mas que é raro. O melhor seria mesmo acontecer o trabalho de equipa. Então, essas três qualidades são: um sócio tem de saber fazer as contas bem feitas, com rigor e transparência, com bons orçamentos; outro sócio tem de saber liderar os recursos humanos e aproveitar as qualidades de cada empregado para o bem da empresa; outro sócio terá de ver a empresa mais à frente, inovando-a a pensar no futuro. Na reflexão desta Palavra, os dois primeiros sócios já vimos quem são. Agora vamos ao terceiro Sócio:

Depois deste diálogo pastoral, a primeira ação concreta é ditada por Jesus: “mandai-os sentar”. A palavra grega anapiptó (ἀναπίπτω) ─ reclinar-se, deitar-se ou sentar-se ─ era um gesto comum entre os judeus no texto da mesa pascal. O sentido era: deito-me, reclino-me à mesa de jantar, caio de costas sobre o peito de outra pessoa reclinada ao jantar. Ora, o contexto desta cena do Evangelho era a proximidade da Páscoa a festa dos judeus. Com o convite a mandarem-nos sentar, Jesus ajuda-os a abrirem-se a um novo modo de celebrar a Páscoa. E, depois de estarem todos reclinados, “então” ou “de acordo com aquela posição” (gr. οὖν, oun), o que vem a seguir percebe-se facilmente como prefiguração do que virá a ser a Eucaristia:

Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido.

E deram conta que estava ali a acontecer um milagre como para nós a Eucaristia é um milagre constante para o bem da humanidade faminta de vida e de sentido. Um milagre que tem as suas réplicas quer nas celebrações do único sacrifício que hoje se comemora na Eucaristia, quer na caridade pastoral em que todos os pastores participam do único e sumo Pastor.

O último pontífice do nosso Bom Pastor, Francisco, está ser caraterizado como “o Papa em que o futuro começou antes de acontecer“. O seu pontificado está cheio de gestos, palavras e apelos que demonstravam a sua relação permanente com a realidade. Como Jesus. Na sua autobiografia deixou citada uma frase do poeta austríaco Rainer Maria Rilke que se concretizou na sua entrega: “o futuro entra em nós, para transformar-se em nós, muito antes de acontecer”. Muitas daquelas que foram as opções de Francisco como Papa, já Deus as começou a preparar na sua juventude e mesmo antes de ele nascer. O exemplo mais evidente é o da migração atribulada dos seus avós e pai da Itália para a Argentina, e de como Deus os livrou dos desastres que aconteciam naquelas margens. Não admira o carinho e esforços que Francisco devota aos migrantes e refugiados.

Assim, também, hoje podemos olhar para as celebrações da Eucaristia mais como um Sacramento (quer dizer “encontro de graça”) prefigurado para livrar os seres humanos do naufrágio da vida humana (que podemos chamar de “economia da salvação”), do que um prémio de alguma ascese meramente humana ou economia à maneira dos homens. Mais do que aquilo que temos, para a nossa colaboração neste Sacramento precisamos de entregar o que somos e como somos, feitos de dignidade, de carne e partilha. Assim como Cristo fez: a sua divindade, não dispensando a sua carne. O que Ele era e tinha à disposição na Cruz.

Assim, Santo Atanásio descrevia a encarnação do Verbo num dos seus sermões:

Assim, o Filho incorruptível de Deus, tornando-Se solidário com todos os homens por um corpo semelhante ao seu, a todos fez participantes da sua imortalidade, a título de justiça, com a promessa da ressurreição. A corrupção da morte já não tem poder algum sobre os homens, por causa do Verbo que por meio do seu corpo habita neles.

Sempre que olharmos para a presença de Jesus na Eucaristia com triunfalismos, teremos de fazer como Ele quando os discípulos o queriam fazer rei à maneira humana: fugir sozinho para a intimidade com o Pai no monte da oração. E, também, como nos exemplificou Francisco, aproximarmo-nos mais do quotidiano das pessoas com a escuta ativa e o discernimento. Este é verdadeiro quando nos faz ir ao encontro da vontade de Deus a respeito das pessoas e não da nossa vontade humana acerca das pessoas. Só daqui é que se pode abrir a porta da misericórdia, o outro nome de Deus. A “prova dos nove” deste modo de proceder está bem descrito na página dos Atos dos Apóstolos hoje proclamada. O que é de Deus perdura; o que não é de Deus sucumbe. Então, há que gerir a nossa vida cristão e pastoral a pensar e a agir na promoção de todas as pessoas e não na autorreferencialidade de pessoas e instituições. Assim haverá pastoral, sendo esta transparência da pastoral de Jesus Cristo.