L 1 At 5, 17-26; Sl 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7. 8-9 Ev Jo 3, 16-21
Quem acredita n’Ele não é condenado… Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus.
Está no jornal Público de hoje um artigo de Miguel Esteves Cardoso com o título “O acendão interior”, analisando a dificuldade que sentimos na esperança da luz elétrica e fazendo um elogio à “eletricidade” interior que é capaz de pôr a funcionar os “dispositivos” humanos que são o coração, os pés e as mãos. Há dentro de nós um circuito autónomo que é preciso pôr a funcionar como deve ser. Porque é de dentro de nós que vêm as ideias, os estímulos, as faíscas. São as nossas mãos que põem as ideias em movimento e os nossos olhos que vão julgando como está tudo a correr.
No apagão que vivemos no início desta semana ficámos reduzimos aos nossos próprio recursos. E esta situação lembrou-nos que não há dispositivo como o corpo humano, como o cérebro a mandar nas mãozinhas. A Palavra de hoje inspira-me a afirmar que circunstâncias como estas podem servir para regressarmos ao essencial, ao “só Deus basta” que por vezes fica ofuscado por tanta energia elétrica e aos dispositivos externos ao corpo humano, extensões necessárias no mundo de hoje, mas nem sempre facilitadoras de uma mais afetiva relação com Deus e com os irmãos.
Há testemunhos de uma “competência silenciosa” que é capaz de nos pôr a funcionar desde dentro e em comunhão com os outros, nas mais variadíssimas situações, sem nos deixarmos abalar de todo. A prática da esperança ou esperançar pode definir-se como um ato de antecipação que distingue a esperança cristã de todos as outras formas de esperança. Nela há um confluir entre a ação humana (futuro) e a proximidade de Deus (advento), onde o amanhã se constrói entre estes dois atores: o cálculo humano e a surpresa divina. Santo Agostinho costumava usar o ovo para falar da virtude da esperança cristã, convidando-nos a considerar o que está dentro (o que ainda não vemos) do ovo (o que vemos). No caso da esperança cristã podemos perguntar: poderá Deus fazer omeletes sem ovos? Fica a pergunta em aberto.
Foi do interior da prisão que o Anjo do Senhor libertou os Apóstolos, para irem ao templo apresentar as palavras de vida. E os guardas constataram que já tinham saído lá de dentro com as portas fechadas e com os sentinelas à porta. É disto que estamos a falar quando nos referimos à esperança cristã, que é a esperança na ressurreição: estamos a falar de um amor que se antecipa, como aquele de “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna”. Não para condenar, mas para salvar. Com a esperança, a Igreja propõe-nos um ato de antecipação imitando Aquele que Se antecipou primeiro no amor. Cristo é o grande dom de Deus aos homens, é a fonte da salvação. É a luz que ilumina mais fortemente que todas as demais luzes. Ao lado d’Ele, todas as outras luzes não passam de trevas. Quem d’Ele se aproximar praticará obras de bem e não terá nenhum receio de ser visto pelos homens; ao contrário, o que d’Ele se afastar tem receio de que os homens o vejam, porque as suas obras o hão de envergonhar.
Vivamos este tempo pascal, dentro do Jubileu da Esperança, como quem se antecipa, preparando-se o mais possível para o cuidado daquilo que somos chamados a fazer em favor dos outros.
