A entrada em Jerusalém é o ponto de chegada de uma caminhada que o Senhor Jesus fez com os seus discípulos, para ali consumar o seu mistério pascal. Também nós viemos, desde o início da Quaresma, do caminho de penitência e de caridade com o qual procurámos assemelhar a nossa vida à vida pública de Jesus. Jerusalém é símbolo da vocação de consagração para a qual cada cristão foi chamado; é tempo e lugar de entrega aos irmãos, estado de vida que nos serve de “transporte” para a Jerusalém celeste. Ao assumirmos a nossa cruz pessoal, associamo-nos ao grande ato de amor que Jesus nos dedicou na Cruz, que tem como benefício virmos a tomar parte da Sua ressurreição.
A procissão com que começa esta celebração, após a proclamação do Evangelho, é diferente de todas as outras: a procissão inicial das celebrações da Eucaristia e as procissões das festas dos Santos. Habitualmente, nas procissões, o sacerdote vai atrás (no fundo, para que quanto o que preside chegar ao lugar da celebração, já a assembleia está toda bem composta). Nesta procissão, o que representa Jesus Cristo vai à frente, pois, neste dia, o Mestre “caminhava à frente dos seus discípulos subindo para Jerusalém”. Curiosamente, ao chegarem a Betfagé e Betânia, Jesus enviou dois discípulos à sua frente dizendo-lhes para preparar o modo como gostaria de entrar na cidade santa. Betfagé e Betânia, conhecidas pelo seu bom acolhimento podem bem representar as nossas comunidades, a partir das quais nos é possibilitado prepararmos a nossa entrada no Reino de Deus. Na verdade, o Mestre quis precisar das nossas ajudas humildes para realizar a sua missão. E ainda hoje o quer!
Como deve ter sido extraordinária aquela descida ao aproximar-Se da descida do Monte das Oliveiras! Extraordinária e, ao mesmo tempo, estranha. Extraordinária para os discípulos que louvavam a Deus pelos milagres que tinham visto Jesus realizar; estranha para os fariseus, que não estavam de acordo com esta cerimónia.
Peço autorização do P. Ermes Ronchi para transcrever aqui a narração de uma sua experiência, que nos pode ajudar a ser mais realistas esperançosos no que toca a assumir o drama da Paixão:
A cada retorno da Semana Santa, uma conversa de muitos anos atrás com um monge trapista da Abadia de Orval, na Bélgica, emerge da memória. Um dia, enquanto o ajudava no seu trabalho, a certa altura perguntei-lhe: «Permita-me uma pergunta, Padre: alguma vez o senhor se cansou de Deus? De estar farto da comunidade, dos votos, das exigências do evangelho? Isso já aconteceu com você? Para mim, sim. O que podemos fazer quando nos cansamos de Deus? Pensei que ele responderia algo como: Como você está atrasado na fé! Como alguém pode se cansar de Deus? Ou com um dos muitos clichês que ouvi da boca de muitos… Em vez disso, ele olhou para mim com olhos profundos e doces, e começou a falar comigo sobre São Bernardo e seu comentário sobre o Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém. Lembro-me apenas do essencial, e era isto: «no dia que chamamos Domingo de Ramos, na procissão que acompanha Jesus na descida do Monte das Oliveiras, há quem cante, quem aplauda, quem estenda o seu manto, quem acene com ramos de palmeira, um jardim ambulante. Alguns estão mais próximos de Jesus, caminhando ao seu lado, outros estão mais distantes e distantes. Há um clima de festa para todos… mas há um personagem que não participa desse clima de alegria, uma criatura que trabalha mais do que todos os outros, trabalha o dobro e se cansa: é o jumento em que Jesus está sentado, com seu jumentinho, que sente todo o peso daquele caminho íngreme, sob o peso daquele homem desconhecido que ele carrega; e ainda assim não para, continua a subir. O burro é aquele que trabalha mais duro, mas também é o mais próximo de Jesus. Ele sente seu calor e sua proximidade. Isso também acontece conosco”, ele me disse, “quando lutamos, ou sentimos o peso da oração, da vida segundo o Evangelho, do ministério, da comunidade, quando não temos mais o desejo, podemos pensar no burro na procissão do Domingo de Ramos, talvez sejamos como aquela criatura mais próxima de Cristo: carregamos a Ele e o peso do Evangelho, a Ele e as fadigas da missão. Trazemos pedras angulares para um novo mundo. O importante é não desistir, porque ainda falta pouco e agora é Jerusalém.” Perseverai, porque – dizia Dom Lorenzo Milani -: Enquanto há esforço, há esperança”.
